(obs: o texto abaixo é uma síntese feita a partir de dois textos acadêmicos. As referências completas podem ser encontradas em http://gvive.org.br/historia-dos-ginasios-vocacionais/bibliografia)

A pesquisadora Daniela Albuquerque fez uma descrição bastante objetiva da história do SEV, que adaptamos abaixo *:

No período pós-guerra, a necessidade de um novo sistema de educação para o país vinha sendo amplamente debatida e se aguardava com ansiedade a aprovação, pelo Congresso Nacional, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Falava-se em educação moderna, em educação nova, etc.

Com a posse de Carlos Alberto de Carvalho Pinto, como governador do estado de São Paulo, em 1958, são criadas as condições para que, em 1959, fossem concretizadas e instaladas as Classes Experimentais. Um dos grandes responsáveis por esse feito foi o Professor Luiz Contier, que integrou a Comissão de Técnicos do Departamento de Ensino Profissional e foi encaminhou à Diretoria do Ensino Secundário do MEC um “Plano para a Organização das Classes Experimentais”, desenvolvido em nove estabelecimentos da Capital e do interior. Tratava-se apenas de um elenco de alterações a serem introduzidas nas escolas secundárias.

Eleição para Governador – Carlos Alberto de Carvalho Pinto

Uma das primeiras “classes experimentais”, especificamente a de Socorro tinha seu embasamento metodológico no Modelo de Sèvres (França), nas propostas da Escola Nova, que tinham como idéia central a pedagogia do educador John Dewey, e também no Modelo da Escola Compreensiva Inglesa (Método Morrison).”

Instituto Narciso Pieroni – SEV

Classe Experimental de Socorro – SP

A professora Maria Nilde Mascellani também descreve esse processo em seu texto intitulado A Educação Básica no Brasil e América Latina repensando sua historia a partir de 1930, que transcrevemos a seguir:

Na rede pública paulista, funcionaram Classes Experimentais nos I. E. Alberto Comte e Macedo Soares, da Capital. E nos Institutos de Educação Carlos Gomes de Campinas, de Jundiaí e Instituto de Educação Narciso Pieroni da cidade de Socorro e em vários colégios confessionais. Em 1961 quase todos assumiram modelos pedagógicos franceses, oriundos do Instituto Pedagógico de Sevres ou do Instituto de Educação Católica de Paris, liderados estes, respectivamente, por Mme E. Hattuiguais e Padre Faure. Convém registrar que a época havia um programa de colaboração entre o Governo francês e a Secretaria da Educação, expresso por bolsas de estudo para professores paulistas.

As classes experimentais foram instaladas paralelas às demais. Seguiam mais ou menos o programa oficial, só que tentamos desenvolver paralelamente o estudo do meio e fazer uma integração das matérias, como eram chamadas, e passamos a designar disciplinas”. Olga Bechara

Ao visitar a Inglaterra, o Secretário de Educação do estado de São Paulo, Luciano de Carvalho, conheceu a Escola Compreensiva Inglesa. Ele ficou encantado com a escola compreensiva. [...] Quando voltou disse que precisava organizar um grupo para mudar o ensino em São Paulo. [...] Ele foi informado que já existia uma escola que já fazia algo diferente e que poderia responder algumas das suas preocupações”. (Olga Bechara). Foi conhecer a escola e o trabalho em Socorro, sendo recebido pela diretora Ligia Furquim Sim, Olga Bechara e Maria Nilde Mascellani, na ocasião coordenadora pedagógica da equipe de professores.

Maria Nilde Mascellani e Olga Bechara

Escola Experimental de Socorro – SEV

Instituto de Educação Narciso Pieroni – Estância de Socorro

Foi organizada então, em 1961, pelo Secretário Luciano Vasconcellos de Carvalho, uma comissão de educadores e especialistas do Ensino Secundário e do Ensino Industrial para apresentar um projeto de estudo que pudesse, ao ser concretizado, permitir o aparecimento de um tipo de escola que atendesse aos apelos de uma sociedade que buscava o fortalecimento da democracia e que desejava avançar rumo às transformações de estrutura social. A Coordenação da Comissão coube ao Professor Oswaldo de Barros Santos, Técnico em Educação do Departamento de Ensino Profissional. Pelo Ensino Secundário foram convidados os professores Luiz Contier, Diretor do Colégio Alberto Comte, da Capital, e Professora Maria Nilde Mascellani, do Instituto de Educação Narciso Pieroni, da cidadede Socorro.

Secretário Luciano Vasconcellos de Carvalho (centro) – SEV

A única saída para dar cobertura a um novo modelo de escola, fugindo, portanto, da Portaria 501, foi promulgar uma Lei Estadual de Reforma do Ensino Industrial. Coube à Comissão regulamentá-la (Lei Estadual no. 6052, de 3/2/61), elaborando o texto do Decreto Estadual no. 38.643, de 27 de julho de 1961, assim também, as determinantes do novo tipo de escola secundário que viria a denominar-se Ginásio Vocacional.

A Lei no. 6052/61 estabeleceu no seu artigo 25, parágrafo único, que seria instalado um órgão especializado da Secretaria da Educação para coordenar as unidades de Ginásios Vocacionais autônomos. O Decreto n°. 38.643/61 estabeleceu no seu artigo 302, que o referido órgão seria o Serviço do Ensino Vocacional, diretamente subordinado ao Gabinete do Secretário.

Foi designada para coordenar esse órgão, a Profa. Maria Nilde Mascellani, membro da Comissão (que nesse momento foi extinta) e que na qualidade de docente efetiva do Instituto de Educação de Socorro (área de educação) coordenava as Classes Experimentais deste estabelecimento.

O Serviço do Ensino Vocacional foi instalado precariamente em sala anexa ao Gabinete e depois nas dependências do Departamento do Ensino Profissional, mudou-se no início de 1962 para uma ala do prédio do Ginásio Vocacional do Brooklin – Capital, ainda em construção. Passou então a realizar as medidas necessárias ao cumprimento de suas funções previstas artigo 302 do Decreto Lei no. 38. 643/61. A coordenadora formou uma equipe de trabalho convidando para compô-la, professores do Ensino Técnico e do Ensino Secundário, com predomínio destes últimos.

Em 1961, notas publicadas nos jornais da cidade de São Paulo anunciavam a instalação de uma escola de nível ginasial, em caráter experimental, com o nome de ginásio vocacional, no bairro do Brooklin. Até então, só se conheciam experiências educacionais ao nível de Classes Experimentais. Pelos jornais e demais meios de comunicação e também boca a boca, as notícias de um novo ginásio, com características diferentes dos já existentes chegavam até às famílias da região, provocando em algumas uma resposta de interesse e de aceitação imediata em lá colocar os seus filhos, e, em outras, o conflito pela decisão em qual escola colocá-los, muitas vezes resolvidos com a decisão de experimentar um escola nova, porem sempre acompanhada de muita ansiedade pelas consequências que poderiam advir para a educação dos seus filhos. Outras famílias, com certeza, devem ter experimentado um ceticismo em relação à novidade e resistiram ao novo tipo de educação que ali estava sendo proposto. Para muitas, ainda, o nome de ginásio vocacional aparecia associado à idéia de escola industrial, atraindo mais aqueles de classe média e média baixa e mesmo as de nível socioeconômico baixo. As famílias de nível socioeconômico mais alto que decidiram de imediato lá colocar os seus filhos, o fizeram porque ao tomar conhecimento da proposta tinham a convicção de que era esse o tipo de educação que buscavam para eles.

A proposta pedagógica dos Ginásios Vocacionais utilizava estratégias de integração curricular, como os estudos do meio e os projetos de intervenção na comunidade e planejamento curricular por meio da pesquisa na comunidade — um meio de trazer a realidade social para o interior da escola.

Suas linhas diretrizes na condução da prática pedagógica eram a apreensão integrada do conhecimento, o valor do trabalho em grupo, o desenvolvimento de condições de maturidade intelectual e social, o exercício consciente do trabalho, a definição de opções de estudo e ocupações, a disposição para atuação no próprio meio e a descoberta da responsabilidade social.

A área de maior peso era a de Estudos Sociais, que incluía noções de História, Geografia, Economia, Sociologia e Antropologia. Uma ou outra dessas disciplinas poderia ser explorada mais profundamente, dependendo da unidade em estudo.

O regime de trabalho dos professores e orientadores dos Ginásios Vocacionais foi inicialmente de 36 horas semanais, passando depois para 40 e 44 horas semanais, quando a nova legislação assim permitiu. Faziam parte das funções dos professores: preparação de aulas e atividades; seleção de bibliografia e textos de estudo; orientação do estudo dirigido; observação de alunos e elaboração de suas fichas; organização do estudo do meio; planejamento do trabalho de avaliação e o cuidado com a documentação dos alunos em sua área.

O processo de avaliação nessas escolas também era considerado inovador: substituía as notas por conceitos. Os alunos se auto avaliavam em relação aos objetivos, aos métodos e estratégias, conteúdos e atitudes. Atribuíam a seu próprio desempenho um conceito que era levado aos Conselhos de Classe e aí eram discutidos.

Outro aspecto importante da proposta dos Vocacionais refere-se à integração escola e pais. Considerava ambos, os elementos essenciais para o contato com a comunidade, sendo esta, a razão da importância dada aos trabalhos com os pais, bem como, a participação deles no processo educativo de seus filhos.

O SEV se estruturou durante oito anos e na sua fase final contava com os setores de:

Pesquisa Sociológica: Cida Shoenacker;

Setor Administrativo; Tomyres Alves;

Setor de Pesquisa Psicopedagógica: Cecília Vasconcellos Lacerda Guaraná;

Setor de Treinamento do Pessoal do Magistério: Maria Cândida Sandoval Camargo;

Setor de Projetos de Prédios Escolares: Dr. Pedro Torrano;

Setor de Materiais de Apoio Pedagógico:

Setor de Recursos Audiovisuais e Biblioteca: Rita Brasil, Suely Pinotti e Esméria Rovai;

Setor de Supervisores: Ângelo Schoenacker;

Com o golpe militar de 1964 e a implantação da ditadura, esse sistema começou a ser visto como ameaça ao regime. Em junho de 1969 a Coordenadora do SEV – Serviço de Ensino Vocacional, Maria Nilde Mascellani foi sumariamente afastada de seu cargo. Por fim, em 12 de dezembro desse mesmo ano o modelo foi extinto com a ocupação truculenta pelos militares das seis unidades dos ginásios vocacionais. Seus dirigentes, professores e vários alunos foram presos, processados, aposentados pelo Ato Institucional n° 5 e outros atos arbitrários. As escolas foram invadidas simultaneamente em 12 de dezembro de 1969 pelo Exército e pela Polícia Militar. Nesta invasão muitos materiais foram danificados e outra parte levada para os porões do Quartel do II° Exército. Alunos, professores e pais trataram de esconder tudo o que possuíam e aquilo que pôde ser salvo das escolas.

Cerca de 10.000 alunos passaram pelos Vocacionais em quase uma década de existência, e sentiram-se órfãos com o fechamento inesperado da escola, pois tinham orgulho de haver participado daquela experiência inovadora.

Cronologia:

1961

1º. Semestre: Instalação do Serviço do Ensino Vocacional

2º. Semestre: Estudo de áreas e prédios com vista à instalação das primeiras unidades escolares

1962

Instalação dos Ginásios Vocacionais de: São Paulo, Capital (Brooklin), Americana e Batatais:

Brooklin – Capital – Ginásio Vocacional Estadual Osvaldo Aranha

 

Americana Ginásio Vocacional Estadual João XXIII