Saia Daí  Agora
Dalton Souza Genestreti Jr.
Advogado/Jornalista/Historiador – Turma de 66 – GV BARRETOS

 

Saia daí agora
Dalton Souza Genestreti Jr.
Meu pai parou seu fusca azul claro na porta do Vocacional. e entrou dentro da escola sozinho. No carro ficamos minha mãe, meu irmão e eu, bastante ansioso. Na verdade, eu não tinha conseguido aprovação do Estadão porque tinha ficado muito nervoso na hora da prova. No Vocacional, os examinadores eram todos muito afetivos e pareciam torcer para que todos entrassem no curso ginasial. Depois de alguns minutos que pareceram horas, meu pai saiu do prédio (ainda era o antigo, onde depois funcionou o “Paulina Nunes”) em passos rápidos. Olhou pára mim no banco traseiro do fusca e disse: “saia daí agora”. Tremendo e sem entender nada eu obedeci, então fui abraçado por ele que disse – “quero ser o primeiro a te abraçar, você entrou em décimo terceiro lugar”.  Começava aí, uma das experiências mais marcantes em minha vida. Eu estava no Vocacional. Era 1966.

Antes do primeiro dia de aula, fomos chamados para comparecer no ginásio. Como era comum em Barretos, assim como em toda a cidade de interior, encontrei diversos conhecidos e amigos, que já tinham estudado comigo ou simplesmente havia visto andando na rua.

Uma gincana, foi o que nos  propuseram. O que ?? Gincana ?!! Eu era o garoto maais tímido da cidade. Não conseguia dar bom dia a ninguém sem ficar vermelho. Junto com uma porção de alunos e alunas dentro do pátio de uma escola desconhecida e, ainda por cima, praticando brincadeiras que eu tinha vergonha só em pensar. Fui ficando para trás…para trás, me esgueirei num canto, até que escapei para um lugar onde não havia ninguém. Lá sentei e fiquei esperando as horas passarem. Daí há pouco, o professo José Carlos de artes plásticas me encontrou escondido e me conduziu até uma fila, onde todos os meninos tinham que pegar uma maçã com a boca, dentro de um balde dágua.

Mais uma vez consegui escapar e fugi para a entrada da escola. Quando me ví na rua, saí correndo em direção ao ponto de onibus. Peguei o primeiro “Sarri” que passou. Fui parar na praça, perto da minha casa. Ótimo, eu tinha escapado. Só voltei no primeiro dia de fato.

O primeiro dia foi bastante formal. Todos os alunos ficaram sentados ao redor do pátio em cadeiras de madeira. no palco os professores em uma mesa grande. Os alunos da primeira série ficaram agrupados no mesmo espaço. A diretora Yara Boulos abriu a solenidade e falou um pouco sobre o ensino vocacional. Os antigos alunos leram como um grupo Jogral uma mensagem de boas vindas. Com a nossa entrada, o Vocacional passava a completar o quadro do ginasial com as quatro séries.

Em seguida iniciou-se uma cerimonia de entrega de etiquetas com os nossos nomes escritos, que deveriam ser usadas no peito, até que os colegas antigos, e nós mesmos, decorassem os nomes de todos.

Fomos separados em primeira séria A e primeira série B. Fomos para as classes.

A primeira surpresa !!! Ao invés das tradicionais carteiras, vimos mesas de fórmica coloridas, e cadeiras ao redor delas. Sentamos como pudemos nos dividindo em grupos.

“Atenção, dividam-se  em equipes de cinco”, dizia uma professora de avental branco.

Fomos informados que as aulas poderiam ser ministradas para turmas de trinta alunos, ou para turmas de 15, dividindo a sala em dois e alternando as matérias depois do sinal.

Nosso horário era cheio de letras. Matemática era ”M”, Estudos Sociais era “ES” e assim por diante.

Mas a gincana na verdade estava para começar. Cada matéria pedia uma pasta. Dependendo da matéria, a pasta era recheada com um simples caderno de 50 folhas, ou uma infinidade de materiais diversos (como era o caso de artes plásticas ou artes industriais). Os professores, todos muito jovens, usavam as mesmas roupas que usávamos e assobiavam pelos corredores as musicas que gostávamos de ouvir.

Matérias diferentes,como teatro, práticas agrícolas, educação doméstica, passaram a fazer parte de nosso dia a dia, bem como nosso vocabulário era enriquecido por novas expressões, além de incentivos à contestações e indagações, coisas que nunca tivemos o privilégio de praticar.

Não era o professor quem mudava de sala após o fim da aula, mas os alunos que mudavam de sala. Naquele prédio, tínhamos a eterna sensação de improviso, pois as acomodações eram provisórias. falávamos sempre sobre “o dia em mudaríamos para o prédio novo”.

Lembro até hoje quando, num dos intervalos (tínhamos 15 minutos pela manhã, duas horas de almoço e, quinze minutos à tarde) todos começaram a gritar eufóricos e aplaudir. Na porta da diretoria, Dna. Elizabeth (a nova diretora) recebia sorridente a notícia dos engenheiros, informando que o prédio novo  já estava pronto e em condições de receber os alunos.

Começou a operação mudança. Além das tais mesas de fórmica, haviam também pequenas carteiras de madeira envernizadas que no decorrer do ano eram devidamente rabiscadas, desenhadas e viviam cheias de corações preenchidos com os nomes de alunas e alunos que se apaixonavam. Pois bem, tivemos que lixar todas as carteiras, para depois enverniza-las novamente, afinal, já que iríamos para o prédio novo, precisávamos de móveis mais renovados.

Passamos uma tarde inteira na ”operação lixamento”. Menimas, meninos, professores, todos participaram. Eramos como um grande grupo de irmãos que iam para a casa nova. Que saudade daquele dia. Daquela sensação.

Um pouco antes, fomos até o prédio novo e plantamos diversas árvores. Voltamos imundos para casa. Sujos de terra, de natureza, exatamente como a vida deveria ser.

Nossos pais, acostumados ao ensino tradicional, estranhavam nossas atitudes, nossas conversas e a maneira como contávamos o nosso dia a dia.

O prédio novo era imenso. No prédio antigo, tínhamos até uma casinha em frente à escola para atender às necessidades das aulas de educação doméstica. Nas novas instalações não. Havia uma sala preparada para isso. Sem qualquer preconceito, garotas e garotos cozinhavam, pregavam  botão, faziam barra de calça, ao mesmo tempo que usavam o torno de madeira, a serra elétrica, as massas de modelagem, tintas à oleo, enchada, pá, bola de voley, basquete etc..

Eramos obrigados a assumir responsabilidades tais como: A primeira série cuidava do “barzinho” ou “cooperbar”, que servia refrigerantes e doces para a escola. A segunda série administrava acooperativa, que vendia cadernos, lápis e demais objetos de papelaria. A terceira série cuidava do “Banco Escolar Cooperativo” o BEC e a quarta série do escritório comercial.

O Roberto Pinto foi o presidente do bar, e da cooperativa (ganhou por pouco do Galetti da chapa 2) e o Matinas foi do Banco.

Barretos era o universo estudado na primeira série. O Estado de São Paulo na segunda série, Brasil na terceira e o mundo na quarta série. Quando o professor Gediel dizia para a turma enfileirada “Atenção escola…firmes…fora de forma marche” , todos pulavam com o braço erguido e gritavam… BARRETOS!!!  ou o universo que era estudado na respectiva série.

Para não cansar muito, eu vou parar por aqui e depois continuo.

Um beijo,
Dalton Souza Genestreti Jr.

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