Os Melhores Anos de Minha Vida

Elisete Greve Tedesco

 

Eu já possuía enorme contato com o Ginásio Vocacional de Barretos. Minha mãe integrava a equipe que comandava a cozinha, era uma das responsáveis pelo delicioso aroma que tomava conta de todos os recantos da escola, fazendo com que, professores e alunos apressassem seus passos rumo ao refeitório sempre repleto de alegria e claro, pelos sabores dos pratos preparados com enorme carinho pela equipe da profa Sayoko Sato ( Dietista)

Durante minhas férias escolares, acompanhava minha mãe nas lides com rodos e vassouras, período de faxina. Moleca que era, levava comigo pipas de coloridas rabiolas e, sem nenhum pudor, corria pela área externa da escola fazendo-as alçarem voos mirabolantes, alegria certa.

Estudar em outra escola, era um estudo sem vida, sem vontade e, sem motivação alguma, repeti por duas vezes o que hoje chamamos de quinta série.

Ao ser reprovada novamente, minha mãe resolveu fazer minha inscrição no Vocacional, acreditava, que a escola seria motivadora, que faria despertar em mim, o amor pelos ensinamentos diferenciados. Mais uma vez, ela estava certa, foi um caminhar contínuo, um sorver de informações que se agigantaram e promoveram mudanças intensas.

A menina de origem simples passou a travar conhecimentos que jamais sonhara. Através das aulas de Artes Plásticas ousou sonhar com inovadoras técnicas: óleo sobre tela, xilogravura, decoração, escultura. Fui respeitada em minha decisão, em minha escolha. Fui a única da turma a optar por Decoração, adorava as aulas das professoras Margarida G. Araujo Pinho, Guerina e  Suishen Takahashi e hoje, graças ao querido Voca, atrevo-me a rabiscar, a preencher com tintas e pincéis, com lindas cores, algumas telas; também com capacidade, consigo executar projetos de decoração, reconheço grandes nomes das Artes Plásticas em seus diversos segmentos.

A menina tímida, quieta, aos poucos foi desabrochando, participando dos trabalhos em equipe, até que por fim, começou a liderá-las. Os ensinamentos de mestres como Espedito José Prudente de Oliveira descortinaram mundos, proporcionaram fantásticas viagens, abriram horizontes que acabaram por contribuir com a minha busca pelo curso de História, uma busca um pouco tardia, mas, em conformidade com o que o Teste Vocacional detectara. Teste este, que também afirmara a vocação para o Turismo que tanto amo, pela defesa das causas da minha terra, principalmente, pela proteção dos patrimônios materiais e imateriais que a destacam. O Jornalismo também foi brindado, veia sempre aberta para produzir artigos em diversos veículos da minha cidade.(Barretos)

Participei de Estudos do Meio, jamais senti qualquer diferença financeira nestas viagens. Aprendi, dividi conhecimentos, apreendi lições de vidas.

Valorizei ações, criei e superei expectativas, vislumbrei em atitudes positivas das orientadoras, oportunidades de respeito e amor ao próximo.

Vivi na imensidão da área física do amado Ginásio, dentro daquele palácio do mais puro concreto, sonhos, como se ele fosse um mágico palácio de cristal. Vivi os melhores anos da minha vida, aqueles que marcaram em todos os sentidos, fui feliz.

As lembranças afloram, parece que ouço os acordes do professor de Educação Musical Antonio Possato, ouço o som das flautas doces, músicas para nossos jovens ouvidos, terror para nossos familiares. Rio, sorrio sozinha ao lembrar dos familiares em pânico cada vez que retirava a tal flauta da mochila. Ainda vejo o “Possato” ensinando o tema de Romeu e Julieta: Lá, do, si, mi, mi, sol, mi, lá, lá, sol, fá, sol, mi, dó, ré, mi…

Como foi importante aprender sobre “Donga”, Chiquinha Gonzaga, primeiro samba, grandes incentivadores da minha trajetória carnavalesca de diretora de escola de samba, de aderecista, compositora, e afins.

Saudades dos amigos que fiz, dos professores, dos seus ensinamentos, do método tão revolucionário de ensino que ainda carrego em mim, cravado no peito, na mente, fonte inesgotável de aprendizados, de desenvolvimento pessoal, de cidadania, ética, moral…

Grades não existiam, tínhamos a liberdade do ir e vir sem cobranças, cada qual assumindo suas responsabilidades, atribuindo as médias que entendíamos serem as mais justas.Lembro, que no último período, minhas médias foram Acima da Média e a grande maioria Superiores.

A escola produziu pensamentos em mim, aprendi a fazer questionamentos, a fazer a diferença em qualquer lugar, sem falsa modéstia. Aprendi a dizer de peito aberto “Estudei no Vocacional”.

Polêmica, um pouco talvez, mas, uma polêmica construtiva, politizada, preocupada com a sociedade como um todo, do micro ao macro, com o trabalho em equipe, com a solidariedade.

Ainda lembro do colorido das rabiolas mirabolantes, do aroma da escola, da liberdade que não impunha nenhum limite, do aconchego juntos aos professores, ou melhor, amigos, sinto saudade do imenso pátio, do silêncio respeitoso e também da alegria contagiante das festividades, ah, se existisse a tal máquina do tempo, como gostaria de voltar, pousar delicadamente bem no centro do grande pátio, verter lágrimas de alegria por poder regressar aos melhores anos da minha vida.

Elisete Greve Tedesco – Ex aluna turma de 1970. Hoje historiadora, escritora, pós-graduada em Administração e Organização de eventos.

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