A Cobaia
Eulália E. Gouveia

Quando minha filha Renata (Renata G. Delduque, da turma que ingressou em 1968) foi aprovada nos exames de admissão ao Ginásio Vocacional “Oswaldo Aranha”, no Brooklin, eu lecionava na rede oficial de ensino do Estado, e como mãe e professora, me senti orgulhosa e feliz com o fato.

Ao externar, em conversa com colegas, essa satisfação, houve quem comentasse que minha filha seria “cobaia numa experiência pedagógica que ninguém sabia onde iria dar”.
Respondi que, entretanto, preferia sabê-la cobaia no GV, em cujas diretrizes eu estava apostando do que vê-la manequim, na maior parte do tempo,  em escolas ditas tradicionais.

Quando, anos depois, o GV foi invadido, pilhado e desorganizado por forças repressoras, levando à prisão a Profª. Maria Nilde Mascellani e tantos de seus colaboradores, as pessoas que puderam direta ou indiretamente conviver com a escola e avaliar a consistência das vivências pedagógicas ali promovidas, só poderiam mesmo lamentar e sofrer diante de tamanha violência.

Muitos – entre os quais me incluo – se perguntavam como forças repressoras poderiam, afinal, admitir propostas e ações pedagógicas que favoreciam a expressão pessoal, a capacidade crítica e ampliavam – sem proselitismos – a percepção e compreensão das realidades sociais brasileiras.

Lembro-me também de que posteriormente a essa lamentável ruptura, apareceram, na escola em que eu lecionava, pautas pedagógicas das quais julguei reconhecer a fonte: as famosas “baterias” e propostas de trabalho do Vocacional.
Lembro-me de que, em reunião na escola, causei desconforto para alguns dos presentes ao expressar esse ponto de vista, dizendo que eu reconhecia ali partes do corpo do Vocacional, mas lamentava que a “alma” do mesmo não estivesse, realmente, entre nós…
Imagino que, cada um de nós, pais e admiradores do Vocacional do Brooklin, a seu próprio modo, declaramos e reconhecemos a importância do GV para nossos filhos e para a Educação deste país.

Quero deixar aqui um recado para minha filha: sinto-me contente por sabê-la associada aos colegas daqueles tempos tão marcantes, com o propósito de promoverem o conhecimento e/ou reconhecimento daquela corajosa e lúcida realização pedagógica, da qual todos vocês, ex-alunos, foram beneficiários diretos.

Esse será um importante trabalho!

Eulália E. Gouveia

Depoimento 1 – recebido em 02.08.2005

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