Vocacional – Antes e Depois – A Frustração da Perda
Fernando Chiavassa
Turma de 69 – GEVOA

 

VOCACIONAL – ANTES E DEPOIS – A FRUSTRAÇÃO DA PERDA
Fernando Chiavassa

Talvez, dentre todos aqueles que perderam de vista a escola vocacional, não me esquecendo de ninguém do corpo docente ou discente, os que mais sentiram a extinção do ensino vocacional, foram os seus fundadores, os seus professores e todos aqueles alunos – predominantemente os que ingressaram a partir de 1967 – que não podendo concluir seu curso dentro dos padrões estabelecidos, tiveram sua experiência abortada. Estes alunos tiveram que terminar o ginásio com uma grade curricular atenuada até não virar nada. O projeto vocacional, para estes órfãos de um sonho magnífico, acabou, como que por encanto. Os alunos que entraram em 1967 e todas as crianças até 1969 – que procuravam o vocacional em contingentes cada vez maiores – foram as últimas turmas e das mais prejudicadas com o autoritarismo e a cegueira dominante dentre os políticos no poder daquela época. Estes alunos sentiram o gosto do bolo e não puderam cantar parabéns, não tiveram doces e ficaram com a garganta seca até hoje, pois não puderam ficar na festa até o fim.

Este cenário é sem dúvida o pior possível. Infelizmente, surreal. Na seqüência dos deprimentes desdobramentos do governo militar, após os importantes acontecimentos mundiais ocorridos em68, e após o dramático final do ano de 69 para nosso mundo vocacional, nossa escola, caiu. Já em 1970, o ambiente que nós tínhamos apreendido a reconhecer e a amar – até mesmo numa planta baixa, exercício feito em classe (acho que o primeiro estudo do meio) – era sutilmente descaracterizado, a começar da própria secretaria, das salas dos professores e depois se estendendo aos espaços comuns da escola. Nossas salas vocacionais pouco a pouco foram sendo descaracterizadas. Não tínhamos mais os espaços personalizados para cada uma das disciplinas técnicas ou artísticas. Não podíamos mais andar livremente pela escola. Por onde passávamos encontrávamos traços do despotismo militar. Não podíamos entender direito o que víamos, senão que perdíamos espaços e memória. O refeitório tinha sido literalmente fechado: aquele espaço de alimentação e de encontros tão querido, tão grande, àquela época já asfixiado; gradeado. O teatro isolado, não mais utilizado: abortado. As salas de Educação Doméstica (ED) transformadas em nada. Em doses homeopáticas, as oficinas de Educação Musical (EM), Artes Plásticas (AP) e Artes Industriais (AI) foram transformadas em depósitos de todos os nossos sonhos mais verdadeiros.

Subitamente, para fazer os trabalhos de AI, os materiais tinham que ser comprados pelos alunos, como chapas de compensado, chapas de flandres, ou então bobinas, transistores. Eu me lembro de ouvir uma rodinha de professores e pais, que num dos corredores comentavam que aquela escola tinha acabado. Fiquei no mesmo lugar estatelado. O som expresso por aqueles “adultos” tinha tom de lamento e tristeza. Mas na verdade, eu não podia entender àquela época, tudo, na integralidade. A decadência se fazia sentir, primeiro com a súbita ausência de alguns dos professores dentre os mais queridos. Eu os procuro até hoje dentro da minha memória que sonha repetidamente com minha escola querida e perdida que não volta mais. Não me lembro muito bem, mas sinto que vivia me perguntando – dentro da alma, pois ninguém da direção da escola respondia e nós mesmos íamos perdendo nossa condição natural de perguntar – onde tinham ido parar os professores de AP, AI, PC, ED. Um dia daqueles, pensei, que se a minha escola não voltasse mais para mim, não fazia mal. Pior, é se não voltasse mais para ninguém. Ai! Minha escola vocacional tão querida e tão perdida; tão docemente desejada de novo! Voltava lá nem que fosse para dar aulas: virava professor! Ou que se dane tudo: voltava lá, para ser aluno, mesmo cinquentão, a completar o meu curso.

Ficamos, então, todos carentes. Sem perceber, percebendo, nossa qualidade de ensino foi para o saco. Nossos estudos do meio não avançaram além de uma única cidade do interior, para Rio Claro. Nunca saímos do estado, não conhecemos outras cidades brasileiras, mal conhecíamos nossos colegas que estavam na mesma condição, nas salas ao lado. Não imaginávamos mais: não percebíamos que poderíamos ter nos agrupado, articulado, para ainda tomar decisões e dirigir nossos rumos. Mas já andávamos esquecidos de nós, num ambiente amedrontador! As imposições comportamentais do regime militar já se faziam sentir. Vivíamos, pois, nós alunos e alguns poucos professores remanescentes em 1970, numa escuridão, que embora parcial, era suficiente para despersonalizar quase todo o construído durante um ano apenas. Estávamos distantes já de nossas premissas, que mal pudéramos conhecer. Isso tudo que todos nós da turma de 69 vivemos, podem ter resultado em traumas ou mágoas, senão fortes saudades. O pior é que fora da escola – ainda àquela época – já sofríamos uma certa depreciação por parte de muita gente que por ter comportamento tradicional, não gostava da escola vocacional. O meu próprio irmão desfazia de mim e da nossa querida vocacional. Mais tarde, ao terminar o ginásio, em outra escola – desta vez tradicional – percebi que tinha virado um alienígena: ninguém sabia das experiências que tinha vivido e ninguém gostava.

Como explicar para eles – estudantes tradicionais – que nós próprios nos avaliávamos juntamente com os professores? Que ao final do bimestre, atribuíamos a nós mesmos os conceitos, superior, acima ou abaixo da média, e inferior, com mais ou menos para atenuar ou incrementar possíveis nuances de desempenho? Vigiávamos a nós mesmos e aos nossos próprios colegas. Não havia hipocrisia que se sustentasse diante do convívio diário e constante dos amigos e professores. Portanto, ninguém saía superestimado ou depreciado demais. Mas como contar a olhares e ouvidos incrédulos que podíamos cantar, tocar flautas, bateria ou piano? Como explicar que poderíamos funcionar a cantina no recreio, administrar contas correntes dos alunos no banco ou preparar almoços? Contar que construíamos brinquedos, utensílios, cadeiras e armários? Imaginem contar que fazíamos testes de Cooper? Mas ninguém fora do vocacional gostava de ouvir estas ideias. Lá fora já éramos uma escola menor. Por quê? Eu me perguntava, por quê? Era ainda muito cedo para entender. As pessoas têm medo do desconhecido. Nós éramos então, ilustres desconhecidos. E tínhamos perdido a nossa festa. Tem gente que procura até hoje a sua festa. Eu sou um deles.

Essas experiências todas vincaram tão fundo a minha alma, que exprimi tudo em dois contos literários: “Sem sapatos e sem meias” e “De volta ao colegial”. Em contato com a GVive, eu disponibilizei meu livro de contos em que tais histórias estão trabalhadas na forma de ficção. Quero expressar com isso tudo, que nossas memórias não são somente de alegrias e flores. Não há apenas perfumes. Há sofrimentos. Eu me recordo muito bem de uma manhã em que fomos submetidos a uma entrevista coletiva. No meio de uma aula das disciplinas convencionais– longe de nossas salas mais queridas – recebemos a visita de uma coordenadora, que desenvolvia uma pesquisa comportamental e queria obter dos alunos algumas respostas bemsimples. Ela queria computar dentre os alunos presentes, quais eram aqueles que se julgavam extrovertidos e quais os introvertidos. Cada aluno foi se posicionando de forma que ao final pode se concluir que naquela sala havia dois grupos quase que equivalentes. Menos eu – categoricamente semopções – porque não era nem uma coisa nem outra. Se eu já tinha algumas dificuldades de posicionamento não somente com a sociedade da época, mas também com relação aos próprios alunos dentro do vocacional, me senti muito pior fora dela. Parece-me que até hoje, não encontrei a minha praia. Não obstante, o mar da minha vida passou – e vejam– continua passando pela escola vocacional. Ainda bem, porque ela me deu fortes instrumentos para construir todos os barcos com os quais remei até hoje. E, embora tão distante, tão próxima, ainda dá, senão os remos, braços e pernas! Coração e alma!

Quem sabe, não é hora de parar de remar solitariamente sem destino, e procurar o que mais não sei – definitivamente nunca mais sozinho – e construir um atracadouro, uma pousada, um local seguro de convívio e aprendizado, um lugar que não será nunca mais depredado ou descaracterizado da noite para o dia? Falo do sonho de viver numa terra nunca jamais atingida por terremotos ou vendavais não naturais, e que não tenha que se ver destituída para sempre de seus habitantes mais amados e que seja para sempre defendida com os melhores corações e os mais altos ideais de confraternização e espiritualização. Então, meus queridos “vocacianos” em qualquer tempo e espaço, este lugar terá endereço certo em nossos próprios corações. Em nossas almas. Não me interesso e nem estou falando a metaforizar a respeito da construção de um porto, de um bairro, de uma vila, de uma cidade, de um estado, de um país, nem mesmo de um mundo novo. Não mesmo!

Falo concretamente de parar de andar a esmo e cristalizar tudo aquilo que sei sedimentado em mim, que naturalmente há de se espelhar em todos que também sintam tudo da mesma forma, para criar um mundo melhor. Eu desejo profundamente não ter mais que andar no escuro, não mais esperar em falso pela festa que terminou, sem que eu soubesse por que. Quero encontrar todas as pessoas da festa da qual fui retirado. Quero comer os doces e cantar parabéns. E abraçar a todos: os de antes, os da minha turma e todos aqueles que nunca jamais souberam do que estamos falando. Quero que todos saibam que a nossa festa foi incrível! E que ela nunca deveria ter terminado. Juro!

Fernando Chiavassa
14/04/2011

Título do Review

User Rating:

0 ( 8 Votes )