Utopias
Guilherme Arantes
Cantor e compositor – Turma de 64 – GEVOA

Muito das minhas memórias estão no UOL www.uol.com.br/guilhermearantes mas me fixando mais demoradamente neste tema, tem tanto o que dizer…

Claro que o Vocacional fez uma geração, embora eu tenha ficado pouco tempo – 2 anos, pois minha mãe me tirou dali quando da Revolução do AI5 – e isso foi um desastre na minha cabeça, pois o contraste do Vocacional novinho em folha com o Roosevelt caindo aos pedaços foi um choque total.
Mas aqui contam esses 2 anos …

Minha cabeça, e principalmente minhas mãos foram moldadas ali, naquele vasto e profundo laboratório…
As aulas de artes com o Evandro, de música com o Alvarenga (ali eu era imbatível…), são inesquecíveis…

Ali aprendi a lidar com tornos, serras , esmerís, lixas, furadeiras, madeiras, metais, plásticos, couro, papeis, etc.. para nunca mais pedir pra ninguém me ajudar a fazer nada, nadica de nada …Me tornei o Porquinho Prático, e isso me ajudou para o resto da vida, na improvisação criativa, nos consertos de tudo, de móveis a sapatos , de amplificadores a Piano de cauda Steinway, de microfones a ventiladores, virei um craque em fazer carrinhos de rolimã, nos trabalhos na FAU ( onde eu entraria mais tarde), que ajudaram equipes inteiras a passar de semestre …

Criatividade é a palavra chave do Vocacional. Foi sensacional …
Me lembro da Geografia e História,Estudos Sociais, com seu enfoque amplo e questionador, da Educação Física onde aprendi várias modalidades …

Das viagens para Americana, das festinhas com os Beatles, Ray Conniff e muita bossa-nova…

Das paqueras…
Me lembro de ter visto o Sputnik passando como uma estrela brilhante girando no céu ( parece brincadeira, mas é verdade… )
Disso tudo tiro o essencial, que é o fato do mundo ser um mundo prático, o mundo do fazer, e fazendo se reconstrói a teoria…
Que escola sensacional, que época de ouro pra se viver …Tudo isso foi truncado pela boçalidade-anti-comunista-que varreu o mundo, como se os escrotos do MIT e da Casa Branca já não soubessem que o comunismo soviético estava marcado pra morrer …
A cortina de chumbo caiu ali como uma chuva ácida, sulfúrica, e botou a Profª. Maria Nilde Mascellani no DEOPS … que  filhos-da-puta!!

Hoje essa passagem escura parece coisa do passado, mas não é!
Mas também não destruiu nossa geração.

O Vocacional foi a experiência mais rica na história do ensino no Brasil.
Coisa de Primeiro Mundo, não o primeiro mundo medíocre das paranóias de Wall Street e dos Falcões da Guerra, mas de um primeiro mundo escandinavo, de uma Holanda, uma Bélgica, uma Áustria  ou Suíça.
E isso foi no Brasil. É de se pensar que, se a Revolução truncou um processo criativo tão importante, quantos outros que se geravam naquela época também não foram pulverizados… Que perda! Que desperdício descomunal na Terra dos Desperdícios…

Mas o Vocacional vive, vive, sim, inteirinho na minha cabeça, nas minhas mãos fazedoras de um novo mundo, no coração de todos que ali estiveram.

É por isso que o meu lema, hoje aos 50 anos de idade, é:
UTOPIA JÁ!!!

Guilherme Arantes

 

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