Tatuagem Espiritual
Luiz Henrique de Mello
Escritor, Prof. e Consultor ONGs – Turma de 63 – GEVOA

“Tatuagem Espiritual”
Luiz Henrique Mello
Meu propósito aqui é construir um depoimento capaz de reproduzir minha experiência com o Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha. Essa famosa escola fez parte da minha vida durante os anos de 1963 até 1968.

No começo fiz uma entrevista para seleção. Foi no final de 1962. Quem me entrevistou foi uma moça, cujo nome eu nunca soube. As perguntas concentraram-se em detalhes capazes de revelar perspicácia.  Lembro de uma: Por que os dentes têm serra? Pelo jeito me sai bem. Salvo se a intenção era achar os piores e transformá-los nos melhores.
Assim, sob o número 263 fui selecionado, entre muitos, para fazer parte da segunda turma do Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha. Minha classe, na primeira série, veio a ser a “C” e junto comigo estavam o Luiz Carlos, o Luiz Celso, o Rodolfo, o Carlos Alberto Gandolfo, o Michel, o Mstislav Kamensky, o Manuel Victor, o Marco Otávio, o Marcos Magaldi, a Maisa, a Maria Lúcia, a Ana Maria Joly, a Edna, a Márcia e a Mônica, o Dorian Taterka. Estive na 2ª C com o mesmo grupo. Na 2ªB meus colegas, foram o Francisco Gianatásio, Thomas Roth, Guilherme Arantes, Leda Bech, Mariana Cerretti, e Eduardo Benini. Na 3ªD e 4ª D estavam a Marlene Bendheim, a Gisella Karpati, o Ricardo Cacciatore, Eduardo Marafante, o Fernando Albuquerque Lima, a Ana Cristina Arantes e na 4ªA Maria Alzira, Heloisa, Lurdinha, Hugo, Nicolau entre tantos queridos colegas. Fora das classes, em cada projeto fiz grande amigos como Lélio, Alan Jean Pierre Baldacci, Willian, Maria Alice Amorim Garcia, Pedro Pontual, Paulo Roberto Ferreira, Eduardo Bicudo Dreifuss, Henrich, Wilson Sorrentino, José Luiz Iglesias e vai por ai.

Cabe esclarecer alguns detalhes dessa minha experiência. Primeiro, meu curso ginasial demorou seis anos, ao invés dos quatro regulamentares. Gentilmente, fui solicitado pela orientação escolar a refazer a segunda e depois a quarta séries. No caso da segunda série a justificativa foi: “falta de maturidade para a 3ª série” e no caso da quarta série deve ter havido alguma incompatibilidade com meus gráficos de escolaridade e avaliação. O fato é que meu bom humor, uma certa dose de patetice e uma franqueza meio sarcástica entravam para a conta do item atitudes como menos e puxava o gráfico para baixo.

Fui aluno dos Professores Mrs. Grainer, Geo Arruda, Edson, Itajahi Martins, Accorsi, Lucila Bechara, Elza Baba, Evandro Carlos Jardim, Celeste, Helena, Jonas Cristensen,  Tokika, Lucy, Pomer, Maria Elisa, Orlando, Ferracioli, Diva, Luiz Mário, Odila, Mariazinha, Olga Bechara e tantos outros, todos fantásticos. Tive a honra de conhecer e conversar com uma das mais brilhantes mentes da Educação Brasileira, a inesquecível D. Maria Nilde Mascelani.

O lado positivo da minha longa passagem foi a possibilidade de participar e vivenciar outras experiências. Por exemplo, na  primeira e segunda séries (1) participei com torcedor do torneio de Handebol entre escolas. Foi legal, mas frustrante porque nossos times não ganharam uma. Jurei que ia aprender jogar aquele esporte e mudar aquela história. Isso veio na quarta série (1) quando o nosso time venceu o primeiro campeonato colegial de handebol da história da escola e onde tive atuação destacada, não só como jogador, mas, como um dos organizadores da equipe. As primeiras equipes eram dirigidas pelos professores de Educação Física (Frank, Ephigênia, Hélio, Salua). A equipe campeã foi organizada e dirigida (com um acompanhamento a distância dos Profs. Rizzo e Nelson Sanches) pelos alunos.

Nesse tempo todo de vocacional, além das matérias tradicionais, pintei com todo tipo de material e em várias superfícies, inclusive alguns grandes murais. Construí móveis, trabalhei com solda elétrica, com torno de madeira, serra circular e tico-tico, trabalhei na cantina, na cooperativa, no refeitório, na equipe de recreação, no almoxarifado, ajudei a fundar o Banco Vocacional, cantei nos coros da escola e no da quarta série e fui presidente da Assembléia no Governo Estudantil (na quarta série 2). Estive em Barretos, Batatais, Americana, Rio Claro (onde tomei muita Cerejinha), Belo Horizonte com a Pampulha e as obras de Portinari ,  Ouro Preto, Congonhas do Campo e as obras de Aleijadinho, Codisburgo com Gruta de Maquiné e João Guimarães Rosa, Sabará e a mina de Morro Velho. Estive na General Eletric em Campinas, na Kibon, no Palácio do Governo do Estado de São Paulo e no Palácio dos Campos Elísios onde conversei com a primeira dama do estado, em uma fabrica de vasos no ABC onde vi um oleiro fazer um vaso com as mãos e em vários outros estudos do meio, não menos importantes. Não conheço ninguém com essa experiência no currículo ginasial ou fundamental.

Compartilho da opinião geral. Essa foi uma experiência educacional única. Ao encerrá-la, os políticos comprometidos com o governo militar, furtaram o povo da única oportunidade capaz de dar ao Brasil uma educação digna de um povo de primeiro mundo.

Muitas eram as vantagens deste sistema. Trabalho em equipe, estudo dirigido, estudo do meio, seminário, painel e muito mais. Vivências em áreas inéditas, até então, como Artes Industriais, Práticas Comerciais, Educação Doméstica, Artes Plásticas, Educação Musical, Estudos Sociais, além da abordagem sempre progressista para as áreas tradicionais. Passei por seis sociogramas, pelo D.A.T. e recebi uma carga dobrada de vocacional na minha formação. Descobri depois, como a minha experiência democrática tinha sido contundente e como era difícil ajustar-me em um mundo desejoso em praticar a democracia, mas, sem a minha vivência.

Nem tudo foi acerto. Houve erros, não poucos. O saldo geral foi muito positivo. Tenho muito orgulho desse meu passado. Orgulho-me muito quando vejo meus antigos colegas de vocacional em evidência. Sei, aqui comigo, de onde eles tiraram parte disso.  Lembro da D. Glorinha, minha orientadora educacional da primeira parte de minha longa jornada na escola, pois, toda vez que acontecia algum caso de indisciplina em massa (bagunça geral) ela me chamava para a sala dela como um dos suspeitos. Como no caso daquela bomba que um grupo de alunos comprou fazendo uma “vaquinha” e o Luiz Gonzaga jogou no meio de vários alunos, ela caiu dentro da japona do José Carlos e explodiu fazendo um rombo na japona com algumas queimadura leves no peito do Zé. Pediram-me dinheiro para comprar a tal bomba, mas, neguei-me a participar. Nunca entrei desse tipo de coisa, muito menos com bombas e fogos. Meu gênero sempre foi fazer graça, piadas, sem ofender os colegas ou professores. Claro que dei minhas pisadas, mas, não desse tipo. Essa história aconteceu fora da escola, lá no ponto do ônibus na Av. Sto. Amaro, mas, na hora de descobrir os responsáveis lá estava eu no meio dos suspeitos na sala dela.  Mas, na segunda metade do meu tempo na escola a minha orientadora foi a D. Evair Marques e a compensação veio multiplicada. Com ela fizemos o D.A.T. e descobrimos nossas aptidões e Q.I., além de sua sempre encantadora presença.

Minha vida ficou marcada pela experiência vocacional. É uma tatuagem espiritual. Todos os meus passos a seguir passaram pelo crivo da experiência democrática e participativa adquirida nessa escola sem igual. Pena meus filhos e os filhos dos meus colegas não terem tido essa possibilidade.
Luiz Henrique Mello

Título do Review

User Rating:

0 ( 13 Votes )