Vocacional: uma escola que deu certo
Márcia Fernandes
Musicista – Turma de 67 – GEVOA

Vocacional: uma escola que deu certo
Marcia Fernandes 
 
Pouca gente sabe que o Brasil teve uma das escolas públicas mais ousadas e inovadoras da história, não só do Brasil, mas do ocidente. Não posso falar a respeito de outros lugares do mundo, mas Ocidente já está de bom tamanho.
Se demorei pra tocar no assunto neste espaço foi porque não sabia qual a melhor abordagem. E acabei optando por uma delas, a que realmente me liga ao Vocacional: a abordagem emocional e afetiva. 
Não considero esse aspecto menor, muito pelo contrário: quem dentre a grande maioria, pode se lembrar da escola como de um lugar no mínimo aprazível? A grande maioria das pessoas se refere aos tempos escolares com saudades, mas dos amigos, dos ex-colegas, de um tempo de juventude ou infância. Raros, raríssimos são aqueles que podem dizer que têm saudades das aulas de matemática,do diretor, do professor de química, da prova de Português. E principalmente,das conversas com a orientadora pedagógica! Eu tenho muitas saudades da Evair, grande orientadora mesmo.

Em 1967, aos 11 anos de idade, entrei na 1ª série do Vocacional Osvaldo Aranha, mais conhecido como o “Vocacional do Brooklin”. O bairro de classe média alta me intimidou um pouco, eu que recém havia mudado de um bairro da periferia de Osasco para a Vila Mariana, admirava a modernidade das habitações, as casas com grandes jardins…quem seriam os alunos daquela escola?

As aulas começavam às 7:15 da manhã. E duas vezes por semana terminavam às 16:30. Esses eram os melhores dias, dias da “Opção”. Como diz a palavra, opção eram as aulas que o aluno escolhia para desenvolver: Artes Plásticas (AP), Artes Industriais (AI), Economia Doméstica (ED), Práticas Comerciais (PC). Essas 4 matérias faziam parte do currículo, mas o horário de Opção aprofundava esses conhecimentos.
Nesses dias almoçávamos na escola. As equipes de alunos se alternavam na preparação, limpeza e atendimento do refeitório. Aproveitávamos para aprender algumas receitas com os cozinheiros. Mas essa parte de cozinha ficava por conta de ED. E havia as aulas de “Projetos”. Eu participava do Projeto de Flauta-doce e do Coral. Participei também de outros projetos, de Português, entre tantos outros. E nas opções passei por AI e AP, PC e ED, alternadamente, pois você podia participar de duas a cada ano ou semestre, não me lembro bem.

Do que me lembro bem é do 1º dia de aula. O páteo cheio de crianças procurando a sua fila. É, fila mesmo. O Vocacional não tinha esse problema de achar que fila é excesso de displina. O Vocacional trabalhava muito a questão da disciplina. Usávamos uniforme, brigávamos pelo comprimento das saias, pelas meias 3/4, pela mudança dos calções de ginástica, alunos eram suspensos, expulsos até, tudo isso existia.
Com um grande diferencial: alunos, professores, coordenadores, supervisores, participavam de todas as decisões. E se acaso um aluno se sentia excluído de alguma decisão, ele imediatamente organizava um grupo de discussões, levava o assunto para a sua equipe, geralmente escolhia um professor para ajudá-lo na sua argumentação, levava a questão para a Orientação Pedagógica, e começava uma tremenda briga cujos argumentos se fundamentavam no conteúdo moral desenvolvido pela própria escola, em salas de aula. Se o caso era grave,e não se achavam soluções, a coisa se expandia para assembléias que por vezes paralizavam as aulas até uma resolução. Fazíamos política. Os professores ficavam realmente preocupados com as colocações que fazíamos, e ao mesmo tempo muito satisfeitos porque eram resultantes do sistema de ensino. As contradições se aglomeravam diáriamente. Direitos, deveres e poderes eram o tema de cada momento. Tínhamos alí uma comunidade organizada, uma sociedade viva. Nada se cristalizava.

O Govêrno Estudantil, por exemplo, foi dissolvido pelos próprios alunos pois a estrutura em que ele se inspirou gerou os mesmos problemas do modêlo: Tínhamos um governador e deputados eleitos através do voto secreto. Nas reuniões da Câmara alguns deputados começaram a faltar, a dormir, uma certa inércia e pouca representatividade começou a tomar conta das sessões. Então fizemos (eu era deputada em 68, com 12 anos de idade)uma consulta pública apresentando o problema à comunidade escolar. Votou-se pela dissolução do GEGEVOA. Não sentíamos a necessidade de representantes, todos tinham voz.

Não éramos “autorizados” a falar. Éramos os donos da palavra, da escola. Tínhamos a compreensão da estrutura à qual pertencíamos. A linha divisória entre professor e aluno era bem definida, ao contrário dessa discussão estéril sobre o papel do professor e o do aluno. Muitos pedagogos atuais diriam que o Vocacional era uma escola conservadora. E era mesmo. Tínhamos princípios, regras, horários, comportamentos,compromisso. Compromisso com uma idéia. Tínhamos certeza de que aquela escola era única, mas que estava a caminho de se tornar a escola brasileira, pois estava dando certo.

O sistema de ensino coordenado pela educadora Maria Nilde Mascellani criou 6 Vocacionais: o do Brooklin, Batatais, Barretos, Rio Claro, Americana e São Caetano do Sul. Cada um tinha suas peculiaridades, adaptava-se ao meio. Aqueles que ficavam em zonas onde a atividade rural era predominante adequavam seus conteúdos e práticas ao meio. A escola era parte integrante da sociedade, interferia e era “interferida”.

Foi considerado revolucionário demais pelas autarquias, pelos ruralistas, pelos reacionários, pelos militares, por aqueles que instauraram a ditadura no Brasil, pelo MEC-Usaid:

http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/glossario/verb_c_mec-usaid%20.htm

O Sistema de Ensino Vocacional não tem nada a ver com o conceito técnico que hoje se atribui a essa palavra: Vocacional. Vocacional é vocação, não é treinamento técnico. E tem muito menos a ver com essas aulas de malabarismo circense e Teatro que estão sendo promovidas pela Secretaria de Cultura de S.Paulo, apesar de que o pessoal do Teatro tem feito um trabalho louvável. O Sistema era integrado, não isolado, como esses projetos.
Vocação é tendência, afinidade, reconhecimento, integração. Mas o MEC-Usaid veio para transformar a educação para a economia e sistema do pensamento capitalista.
Segundo Aristóteles, o homem é um animal político. Porque vive em (κοινωνία) comunidade. Não se trata de “comunhão” no sentido religioso aplicado, até poderia ser, mas não pretendo esse caminho. Vivendo em comunidade, nossas ações nunca são ações isoladas, elas repercutem em toda a comunidade. Para melhor ou pior.

O que chamam hoje de “interdisciplinaridade” é algo que se aproxima do que o Vocacional chamava de “integração”. Mais fácil de entender, não?
Não pensávamos em “disciplinas”, mas em áreas de conhecimento.Todas as áreas de conhecimento possíveis de serem abordadas na escola se integravam através dos seus conteúdos.

É muito fácil compreender o Sistema de Ensino integrado que o Vocacional praticava, não é necessário ser pedagogo, aliás é melhor que não seja pedagogo mesmo, para entender. O “pedagogismo” é cheio de terminologias classificatórias que seccionam um todo. Já tentei explicar o Vocacional inúmeras vezes para pedagogos, e eles vão repetindo termos técnicos enquanto eu descrevo uma prática, um comportamento, uma atitude inteiramente comprometida com o todo. Como uma aula de anatomia, só falta quererem estudar o cérebro dos ex-alunos do Vocacional.

O que me intriga é ver como o Vocacional desapareceu da memória educacional deste país. É sem dúvida assunto de inúmeras teses, mas desconfio que além da evidente ação dos criminosos reacionários no sentido de apagar da história os registros dessa escola, parte dessa documentação foi tratada como “reserva de tese”, algumas delas extremamente equivocadas, por sinal. Numa delas, afirma-se (velha arenga…) que o Vocacional seria totalmente inexequível nos dias de hoje como escola pública, pelo seu “alto custo”. Ora, que desinformação absoluta! O prédio do Vocacional do Brooklin, que lá está até hoje, é muito mais modesto do que os CEUS de hoje em dia. Nem se compara, em termos de espaço e estrutura. Nosso maquinário e bancadas das oficinas de A.I., nossa Cooperativa, nossa Cantina, Banco, nosso atelier de AP,eram adaptados utilizando a propria construção e dimensão das salas de aula. Quem imagina o Vocacional como essas escolas particulares de hoje, que mais se parecem com hospitais, está muito enganado.
Nossa área de música, por exemplo, era uma sala de aula com um piano e um contrabaixo,este doado pela família de um dos alunos. E carteiras, mesinhas que empurrávamos para os cantos da sala, para ter mais espaço. Eu me lembro até hoje da barulheira que fazíamos para arrumar e desarrumar as carteiras.
E me lembro também de um mutirão coordenado por AI para restauração das carteiras, sábado de manhã, a escola em peso,às 7:15, lixando e envernizando carteiras. Aprendemos as técnicas de lixar com uma madeirinha, de fazer uma boneca de algodão para o verniz. Uma festa.

O fato é que, naquele momento da história brasileira a organização e mobilização para atividades em grupo e coletivas era uma normalidade. Não era preciso criar uma coisa do tipo das que tem hoje: “amigos da escola”. O dinheiro que gastaríamos pra comprar novas carteiras, previsto pela Secretaria de Educação, foi usado para outras necessidade da escola. Maria Nilde foi processada por “desvio de verba”, por este incidente.
Em 1969 as escolas Vocacionais foram invadidas pelo glorioso exército brasileiro. Em minúsculas mesmo. Os professores foram presos, Maria Nilde foi presa, processada e tudo o mais que a gente sabe, não é… aquelas práticas que os sistemas totalitários gostam de utilizar. Os pais de alunos ficaram apavorados, seus filhos perderiam o ano escolar, além de tudo.
Não sei quem teve a idéia. Não importa. Nos mobilizamos: os alunos das séries mais avançadas davam aulas para os da imediatamente anterior, e assim, sucessivamente. Tínhamos cohecimento de todo o conteúdo que iria ser desenvolvido no bimestre e durante o ano, pois participávamos do planejamento, elaborávamos a proposta de estudo. Sabíamos quais os textos que seriam utilizados. Conhecíamos a didática. A escola era nossa.
Aí foi demais. Interventor na escola pra acabar com essa brincadeira. No Brooklin o interventor era o Pinheiro Machado. Depois eu conto o resto.
Marcia Fernandes

Quinta-feira, 11 de março de 2010

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