Memorial – “In praise of” Vocacional
Marlise Vaz Bridi
Profª/Drª Letras – Turma de 62 – GEVOA

Memorial – “In praise of” Vocacional
Marlise Vaz Bridi

 

Confesso que estou muito emocionada com o que está ressurgindo entre nós. Está claro que eu sabia da importância do que havia sido a experiência do Vocacional para cada um, mas há um clima ainda mais forte do que eu poderia imaginar… Fiquei muito tempo olhando para as fotos dos nossos tempos de GV e é como se estivesse assistindo a um filme do tipo Cinema Paradiso, daqueles que a gente, até contra a vontade, se acaba de chorar!

Também confesso que não reconheço todos e nem mesmo sei qual daquelas carinhas é a minha (desconfio, mas não tenho certeza). Penso que isso importa pouco, porque o que ficou marcado ém nós está para além, muito para além de nossa feições daquele tempo ou dos dias atuais.

Há alguns anos tive de escrever um Memorial para a minha efetivação na USP. Escolhi o tema Os Mestres e os Livros. Penso que talvez interesse a vocês o trecho em que falei do GV.

Então lá vai.

Primeiras Escolas

Estudei na Escola Pública quando ela era muito respeitável. Apesar das críticas que já sofria, e das acertadas previsões de decadência e desinteresse dos poderes públicos por ela, constituía-se ainda na melhor opção para a formação dos filhos da classe média. Cumpri o Primário num dos mais afamados Colégios de Estado da cidade (o Instituto de Educação Prof. Alberto Conte) e nele provavelmente teria continuado a estudar, se não fosse a feliz oportunidade de ingressar no Ginásio Vocacional (Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha, Brooklin – São Paulo).

A experiência dos Ginásios Vocacionais foi um marco na educação de São Paulo e, do meu ponto de vista, enquanto diretamente beneficiada como aluna, um marco pessoal. A escola tornou-se para nós, seus alunos, o centro de nossas vidas, o lugar em torno do qual tudo girava e dentro do qual tínhamos toda a sorte de experiências: as mais vivazes, as mais amplas e abrangentes. Pelo desenho do ensino vocacional, éramos integralmente estimulados a vivências partilhadas e socializadas e, já no início dos anos 60, a construir cada parcela do conhecimento muito antes de se falar em Construtivismo.

Particularmente o estímulo às artes, onde se conjugavam conhecimentos teóricos e práticos, dizia-me respeito. Mas, para além desse aspecto que cada um de nós reconhecia como sua escolha individual e, por isso, diferenciada, corria, sólida, a nossa formação crítica, de caráter político, que, se passava despercebida em todo o seu potencial para nossas tão jovens consciências, em absoluto foi ignorada pelos donos do poder que, na década seguinte, desfigurariam o sistema vocacional até seu total desaparecimento.

Em cada um dos que participaram daquela pequena utopia posta em realidade, resta a memória que se faz História: existiram os mestres Maria Nilde Mascellani, Joel Martins, Olga Bechara, Lucila Bechara, Fernanda Milani, Itajaí Martins e outros tantos.
Entre eles, a professora de Português: Auri Daubian Ferreira. Na biblioteca de classe, ou melhor, na sala-ambiente de Português (no Ginásio Vocacional, havia salas-ambientes por disciplinas – numa antecipação conceitual de décadas), a professora deixou-nos escolher o título que desejávamos ler. Dentre as obras que não havia lido, escolhi o meu indefectível José de Alencar e, malfadadamente, dele escolhi as longas Minas de Prata. Passei o meu décimo primeiro ano de vida tentando cumprir o compromisso sem dar conta dele. Minha querida mestra de Português não viveu o bastante para saber que, de todos os prazeres que a vida me reservou, o maior seria o da leitura.

Marlise Bridi

Texto de 14 de setembro de 2004

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