Expectativa Frustrada: – sobre São Caetano Sul
Neusa Spaulucci
Jornalista

Expectativa Frustrada: – sobre São Caetano do Sul
Neusa Spaulucci
O resgate da história e trajetória da Escola Vocacional me fez voltar ao final da minha infância, já que tive que fazer um exercício para lembrar a expectativa que se criou em torno do surgimento de uma unidade, no final da década de 60, em São Caetano do Sul, minha terra natal.

São Caetano do Sul (o C do ABC, na Grande São Paulo) se desenvolveu em função do pólo industrial. Portanto, era uma região habitada, em sua grande maioria, por operários. Conclusão: o dinheiro era curto e as perspectivas de futuro não eram lá grande coisa. Os filhos desses operários, como eu, meus irmãos e amigos, estudavam em escolas públicas, localizadas nos bairros onde morávamos. No meu caso, na Vila Santa Maria, que foi escolhida para abrigar a Escola Vocacional, na Alameda Conde de Porto Alegre.

O ensino público na época não era dos piores – não se compara ao que vemos hoje -, mas não dava para competir. Quando começou a construção do edifício do então Vocacional, lembro-me do falatório da “rádio peão”. Ninguém sabia ao certo o que seria aquela escola: Vocacional!? Que história era aquela. Falava-se em uma escola em que o aluno fazia um teste “vocacional” para entrar. A confusão entre Vocacional e “vocação” nunca foi desfeita, porque não chegamos – os militares não deixaram – a conhecer o que hoje se conhece como um ousado conceito pedagógico.

A unidade em São Caetano era uma obra grandiosa para os padrões do bairro e da população. Foi construído dentro um bosque de eucalipto (poucas árvores foram retiradas para dar lugar à escola). Ao mesmo tempo, ao lado do prédio da escola, ainda foi construído um teatro, batizado como Paulo Machado de Carvalho. Era uma grande novidade para a Vila Santa Maria. Imaginem: escola bacana e um teatro??!!

À medida em que a obra avançava também crescia a expectativa em torno da escola, uma vez que ficavam cada vez mais fortes os indícios de que ela seria diferente, com métodos e conceitos mais avançados. As informações que nos chegavam eram poucas. Não tínhamos acesso a quase nada. O nosso mundo era restrito ao bairro, com pouca ou quase nenhuma infra-estrutura.

O entusiasmo com o novo projeto era grande. Lembro do meu pai dizer mais de uma vez: “Até que enfim uma escola que preste”. Eu passava em frente da construção, com uma certa freqüência, e pensava: “Quero estudar nessa escola”. Tinha entre 13 e 14 anos e apenas o curso primário, pela Escola Municipal Dr. Arthur Rudge Ramos, também na Vila Santa Maria. Após a alfabetização, não tive chance de continuar os estudos, por falta de tudo: escola, dinheiro, estímulo da família etc e tal (alguns anos mais tarde completei os estudos, pagando do próprio bolso – trabalhava de dia e estudava à noite -, por livre e espontânea vontade).

Na época, a perspectiva de ter uma escola diferente próxima de casa foi semelhante a acender uma vela na escuridão total. Em função dos comentários positivos em torno do empreendimento, parecia uma coisa fantástica. É uma pena que o projeto tenha sido abortado. Para mim, o Vocacional nem chegou a ser inaugurado como tal. Hoje sabe-se que a escola começou a funcionar. No entanto, destoava das demais unidades. Mas a mística em torno da escola se manteve por muitos e muitos anos. Mesmo depois de ter ganhado outro “status”, outra função, outro nome, outro tudo, o prédio continuou a ser chamado de Vocacional pelos moradores da Vila Santa Maria. Virou ponto de referência.

Hoje, não há um só registro do Vocacional na história de São Caetano do Sul. Pode procurar nos sites do município. É como se nunca tivesse existido o projeto. Depois de naufragar, o edifício se transformou em uma escola estadual. Atualmente, funciona a Escola de Educação Básica da Fundação Anne Sullivan, que atende crianças com necessidades especiais.

A inauguração do teatro me lembro muito bem. Afinal, foi um grande acontecimento. Em novembro de 1968, o então prefeito Walter Braido, contratou o show da cantora Elza Soares, para marcar a inauguração, que foi tumultuada. Pudera, o bairro compareceu em peso e os acidentes foram inevitáveis. Imagine. Nunca um artista tinha pisado naquele bairro.

Deu confusão na hora em que uma das portas do bonito teatro foi aberta. Todo mundo queria entrar ao mesmo tempo, para “pegar” o melhor lugar. No empurra-empurra, muitas crianças caíram, inclusive minha irmã, que tinha três ou quatro anos, e quase foram pisoteadas. Não houve tragédia, porque a própria multidão quebrou, no peito, a outra parte da porta de vidro que deu vazão à multidão. Havia apenas um segurança, que, na verdade, seria o porteiro do teatro, que, depois, ficou por décadas a fio sem nenhuma atividade.
O prefeito e a primeira-dama ficaram estarrecidos. Pura inocência achar que um povo tão tranqüilo, de um bairro pouco movimentado, que dormia de portas e janelas abertas, iria se comportar como gente “civilizada”. Por certo um reflexo da “demanda reprimida”, que foi compreendida pelo poder Executivo local recentemente, quando o município quase se transformou em uma cidade dormitório.
Tudo poderia ter sido diferente se a Escola Vocacional tivesse vingado e explorado o potencial dos jovens da época. É possível que a história da cidade tivesse sido outra. Pena!
Neusa Spaulucci

Depoimento 5 – recebido 18.10.2005

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