Vocacional: “Sempre na mente e no coração estará”
Prof. Antonio Pedro Zago
Professor de Matemática - 68/77 – GEVOA

 

Vocacional’’Sempre na Mente e no Coração”
Prof. Antonio Pedro Zago

Em primeiro lugar, expresso imensa satisfação em dar o meu depoimento a respeito dessa extraordinária experiência que foi a do Ensino Vocacional. São algumas considerações de um professor secundário que teve a felicidade de ter atuado lá e ter se apaixonado por ela. Enfim, temos que dar o nosso testemunho.

Inicialmente, vou colocar como se deu o meu ingresso no Vocacional.

Em 1967 eu lecionava numa pequena escola particular e morava no CRUSP – Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, junto com um professor do GEVOA – Ginásio Estadual Vocacional “Oswaldo Aranha”, no Brooklyn, São Paulo. Conversávamos, muitas vezes, sobre o ensino ministrado e as características daquele Sistema, demonstrando meu interesse em ser admitido nele.

Em fins de maio de 1968 eu trabalhava no Banespa, quando esse colega resolveu sair do Vocacional e perguntou se podia me indicar para o seu lugar. Foi assim que, pela primeira vez, entrei no prédio da Av. Portugal, 859, no Brooklyn, onde funcionava o SEV – Serviço de Ensino Vocacional e o Ginásio Estadual Vocacional “Oswaldo Aranha”. Fui encaminhado a duas entrevistas iniciais: primeiro com a Supervisora de Matemática, Profª Lucília Bechara e, em seguida, com a Profª Maria Cândida Sandoval Pereira que respondia pelo SEV, no momento, em virtude de a Profª Maria Nilde Mascellani estar viajando. Também passei pela Orientação Pedagógica responsável pelas 2ª Séries, na pessoa da Profª Maria Auxiliadora Albergaria Pereira, sendo finalmente encaminhado à Secretaria do SEV para apresentação dos documentos necessários à minha contratação.
Eu me lembro da difícil decisão a tomar: deixar um emprego garantido no Banespa, onde segundo opinião de um dos Gerentes do Departamento Financeiro, em que exercia as minhas funções de escriturário, tinha a minha carreira no Banco praticamente consagrada, para assumir o trabalho no Vocacional, ainda estudante de Matemática da USP, embora a ser contratado, na ocasião, pela CLT. Prevaleceu a inclinação para o magistério e o atrativo de período integral na escola que eu desejava, com quase o triplo do salário que recebia no Banespa.

Trabalhei no “Oswaldo Aranha” de maio de 1968 a março de 1977, portanto, no Ensino Vocacional, por aproximadamente dois anos: 1968 e 1969, ano este em que a experiência foi extinta.
Apesar do pouco tempo em que imergi no Sistema de Ensino Vocacional (e o sentido é esse mesmo: foi uma verdadeira imersão nos vários aspectos desse Sistema, com estudos, leituras, muitas perguntas, discussões, amparo dos colegas, com toda a orientação e suporte que o SEV nos dava), pude aprender e me aprofundar na proposta educacional do Vocacional. Sobretudo porque ingressei no sistema sem treinamento prévio. Mas, não me foi difícil assimilar e me adaptar a ele. O trabalho lá realizado era dinâmico, empolgante, vivo, gratificante, pois fazia de cada um de nós um agente consciente e engajado no que se propunha: promover uma educação de qualidade, voltada para as características do homem brasileiro, sem ser mera cópia ou transposição de modelos não condizentes com a nossa cultura. Procurei absorver o que pude de tudo o que via, analisava, participava e interiorizar as várias normas que muito me auxiliariam no trabalho posterior.

Lá no Vocacional nós construíamos, nós criávamos as nossas aulas. E essa criação tinha uma diretriz comum, calcada nos objetivos levantados para determinada Unidade Pedagógica e nos demais aspectos apontados na plataforma bimestral. Nas nossas reuniões pedagógicas semanais por série (Conselhos Pedagógicos) tínhamos a oportunidade de analisar todo o nosso trabalho e o de nossos alunos e reformularmos o que fosse necessário e conveniente, além de planejar as etapas posteriores. Esses momentos também foram muito ricos para o meu desenvolvimento pessoal e profissional. Aprendi muito com meus colegas de trabalho e passei a ver a importância de cada área de conhecimento no currículo e como todas são fundamentais na formação do aluno. Comecei a refletir sobre questões do tipo “Qual é o papel da Matemática no currículo ginasial? Por que ensinar Matemática? O que ensinar? Como ensinar?” e outras mais. Passei a dar ênfase aos conceitos centrais da disciplina, deixando, em segundo plano, conteúdos de pouca importância. Aprendi que o processo de descoberta e investigação de problemas é muito mais eficiente na aprendizagem do que a memorização pura e simples de conteúdos informativos. Aprendi a valorizar e direcionar o meu trabalho para a formação de atitudes de pensamento e de comportamento essenciais para o crescimento do aluno. Passei a conhecer melhor os alunos e a problemática de cada um.

Uma das primeiras experiências, dentre as muitas marcantes que eu tive, foi logo no início, em junho de 1968, quando fomos a um acantonamento em Laranjal Paulista-SP, com os alunos de 2ª Série: ali percebi que estava trabalhando realmente em uma escola diferente. Não era simplesmente um passeio, uma excursão. Era um estudo do meio bem planejado, em todos os seus aspectos, inclusive, com levantamento de atitudes adequadas, feito pelos próprios alunos e por eles cumpridas e avaliadas. Outras marcas iriam acontecer: outros estudos do meio, os estudos dirigidos (desde a sua elaboração até a sua execução e avaliação), os trabalhos em grupo, a participação viva e ativa dos alunos em todas as atividades escolares (e aqui tenho a lembrança de um visitante ou estagiário em minha aula que se surpreendeu com a naturalidade com que os alunos interagiam no trabalho de classe e perguntou: “Como vocês conseguem isso?”). Mais marcas: as atitudes levantadas e assumidas pelos próprios alunos (como, por exemplo, os “Códigos” dos armários, de A.I. – Artes Industriais, etc), as plataformas e as sínteses, muitas vezes realizadas em assembléias presididas pelos próprios alunos, supervisionados pelos professores, as sínteses gráficas e as festas de encerramento do ano letivo, os cursos de atualização e os períodos de planejamento do início e no decorrer do ano, os encontros das áreas de conhecimento das diversas unidades vocacionais, o relacionamento professor-aluno (aberto ao diálogo, democrático, amigável, firme, verdadeiro), o almoço no refeitório da própria escola e o de E.D. – Educação Doméstica, neste, como convidado, com refeição preparada pelos alunos. E tantas outras mais.

Ainda no “Oswaldo Aranha”, a partir de 1970 já na rede comum, por mais sete anos, continuei a aplicar algumas daquelas técnicas. Não posso deixar de lembrar, no entanto, o inestimável apoio de todo tipo que os pais dos alunos nos deram nesse período, como nos anteriores, para que tivéssemos as condições necessárias para continuar mais um pouco muitas das práticas utilizadas pelo Vocacional. Não fosse o trabalho incansável, e diria heróico, da SACVOA – Sociedade de Amigos do Colégio Estadual Vocacional “Oswaldo Aranha”, e teríamos menos tempo de sobrevida.

Com a minha efetivação no Estado, saí, por opção, para o interior, onde na Escola em que exerço meu cargo, procurei continuar, no meu trabalho, alguma coisa do que vivenciei no Vocacional, por exemplo: não dar respostas prontas para os alunos – levá-los à descoberta das mesmas por meio da heurística; incentivá-los a participar das aulas, perguntando, respondendo, discutindo e debatendo com os colegas o que estavam aprendendo; levá-los a apresentar à classe a resolução de tarefas e exercícios propostos, com a devida explicação fundamentada e promovendo discussões a respeito; algumas atividades simples de trabalho em grupo, com apresentação dos resultados e debate; elaboração de pequenas situações-problema e sínteses com os alunos, junto com eles. Não que isso tenha sido fácil: havia alguma resistência no início, pois não estavam acostumados a isso, a esse tipo de aula – alguns reclamavam que o professor não explicava, era muito exigente, coisas desse tipo. Porém, à medida que percebiam a importância do que fazíamos (e isso sempre fiz questão de mostrar e aprendi no Vocacional: o porquê proceder daquela forma, aprender tal conceito ou conteúdo, onde desejaríamos chegar, qual a meta, qual o objetivo do nosso trabalho), ficava mais fácil.

Trouxe do Vocacional algo que me permitiu iluminar o meu trabalho, mesmo nas condições menos favoráveis: ao entrar em sala de aula e durante a mesma, nesse micro-cosmo sagrado, procurei sempre observar os meus alunos, ouvi-los, ser atento, aberto e receptivo com eles, estabelecer sempre, com clareza, as regras do trabalho, as diretrizes e onde deveríamos chegar. Com a elaboração de estudos dirigidos e a ênfase na observação do aluno para o preenchimento dos “selinhos” destinados à Orientação Educacional no Vocacional, aprendi uma maneira diferente de ver o aluno, de se colocar no lugar dele no momento em que vai aprender determinado assunto, de tentar prever quais as possíveis dificuldades que irá encontrar e, mesmo não tendo as condições materiais que lá existiam, encaminhar a aula de modo que o aluno não recebesse tudo pronto e já acabado. O Vocacional me fez perceber o quanto é rica a personalidade da criança e do jovem quando incentivada a se desenvolver em toda a sua força. Ou seja, o aluno é um ser que pensa e que age. E o quanto podemos crescer com essa percepção.

Claro, problemas de disciplina também os tive no próprio Vocacional – nossos alunos eram normais, como qualquer criança ou adolescente. Mas o Vocacional ensinou a equacioná-los e até a resolvê-los, trabalhando a conscientização do aluno e a sua responsabilidade pelas suas atitudes, assumindo as conseqüências dos seus atos. Entretanto, algumas vezes, também me exasperei, também “fiquei vermelho na sala azul”, também tive de recorrer ao encaminhamento do aluno à Diretoria…

O Vocacional me ensinou a ser mais reflexivo, no sentido de pensar sobre a minha ação no dia-a-dia das aulas, na linha ação-reflexão-ação (ainda que, mais tarde, sozinho!) e, muitas vezes, mudar, nem que fosse um pequeno item. O Vocacional me ensinou que educação é, essencialmente, um trabalho de equipe envolvendo todos os agentes da escola e isso pude comprovar não só lá, como também fora do sistema: quando, nas poucas vezes em que, com alguns colegas, traçamos uma linha comum de trabalho para determinado ano letivo, mesmo que em moldes tradicionais, os resultados se fizeram sentir no trabalho com e dos alunos.

Enfim, o Vocacional esteve sempre dentro de mim: mesmo quando as circunstâncias não ajudavam, procurava refletir sobre a melhor forma de atuar dentro das limitações que a rede nos impõe. Posso afirmar com convicção que o Vocacional se tornou o meu “alter-ego” – um outro eu – o amigo íntimo no qual se pode confiar tanto como em si mesmo.
Tenho certeza de que se o sistema frutificasse, não tivesse interrompida brutalmente a sua experiência, justo quando estava na fase de revisão e consolidação de suas práticas, com modelos de programação pedagógica a serem sugeridos à rede comum, muito ganharia a educação paulista e por que não a brasileira.

Vocacional: “sempre na mente e no coração estará”.

Antonio Pedro Zago

*Material usado no II Seminário GVive de Educação

Atibaia, 19 de novembro de 2009.

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