“1968 – O ano que não terminou”

Renata Gouveia Delduque

 

2005: eu estava pesquisando na internet minhas raízes familiares quando me deparei com meu nome num site chamado “Bate Papo no Pátio” – e achei minha outra ‘família’, a do Vocacional do Brooklin. Quase 40 anos depois me vejo lendo o post da Eliana Markun – “cadê fulano? E fulana? E a Renata?”. Gente! Sou eu!

1968, o “ano que não terminou” – Eu tinha 12 anos e estava ingressando no Vocacional. Neste ano, o mundo além da família e do bairro se tornou relevante para mim. Morávamos perto do Aeroporto de Congonhas. A casa era grande e triste, mas minha mãe havia feito um bonito jardim onde extravasava as preocupações. Meus pais estavam se separando, escândalo na época, e foram tempos difíceis. Meu pai não se interessava por política: se estava bem nos negócios, votava no MDB, se mal, na Arena. Ele viajava muito e não soube das reuniões de que minha mãe participava com seus colegas professores: alguns, mesmo sem estarem envolvidos em movimentos políticos, haviam sido denunciados. Tempos de DOPS, CCC, delegado Fleury. Minha mãe saía elegante, maquiada, tailleur impecável e com as mãos tremendo, para prestar depoimento. Ela apenas havia defendido alunos que foram punidos por pichar muro. A partir da repressão que sofreu despertou realmente para a política. Um dia, à noite, os professores se reuniram com minha mãe em casa, apagaram a luz, acenderam o abajur e me colocaram de vigia, para espiar a rua. Eles estavam tentando afinar os depoimentos que dariam para o delegado Fleury, para não caírem em contradição.

Um dia liguei o rádio e estavam transmitindo a guerra dos estudantes do Mackenzie e da Filosofia da USP. Fiquei horas acompanhando os acontecimentos. Aquilo ficou remoendo. A estas alturas, meus pais já haviam se separado e morávamos minha mãe, meu irmão e eu numa casa assobradada, em cima de uma oficina mecânica, na Av. João Dias, e de certa forma cada um estava voltado para si mesmo.  Foi nesse clima que o Vocacional abriu as portas para mim, desafogando a vida e as tensões daquele ano.

Estas memórias de acontecimentos escuros contrastaram com a experiência libertária que o Vocacional representou para mim.  No clima da época realmente o Vocacional foi uma luz inclusive em termos de liberdade pessoal: lá, se podia “ser”.

Voltando a 2005 – Via “Bate Papo no Pátio” escrevi para alguns colegas, o primeiro o Chucras, que me fala de um encontro de ex-alunos. Sábado, Bar Memorial. Será que é legal esse negócio de encontro de turma de escola? Sim, é muito legal. Como disse o Shigueo, “ficamos com um tipo de sinal, reconhecido pelos portadores, dificilmente comunicável aos não portadores. Não nos torna diferentes ou especiais. Só nos une”. Ou como disse Luiz Henrique Mello no seu depoimento, “é uma tatuagem espiritual”.

Mesmo sem lembrar nomes e não reconhecendo todos, nos sentimos “em casa”. No encontro, havia muita energia. E que energia é essa? Parece ser do tipo da que fica concentrada nos menores e mais saborosos frutos.  O Vocacional existiu por apenas nove anos. Em plena ditadura, foi capaz de educar de forma integral. Não subestimava o potencial e a capacidade do ser humano. Para usar palavras da época, não foi escola “de informação”, mas de “formação”. E por isso acreditavam alguns que seus alunos não seriam capazes de passar no vestibular. Não sabiam que nós tínhamos aprendido a aprender e que o Vocacional nos havia ensinado a estudar. Mais que isso, a dar asas à curiosidade e a tomar gosto pelas descobertas.

Algumas lembranças do Vocacional – Através de múltiplas experiências, o Vocacional desenvolveu os meus cinco sentidos e por isso ficou mais gravado em mim que se estivesse só na minha mente. Basta me concentrar um pouquinho para sentir os cheiros da casinha modelo de Educação Doméstica, conduzida pela Professora Nilza; o da cera em lata que aprendíamos a passar no chão e o de batata cozida, porque íamos fazer purê e oferecer no almoço para uma professora convidada pela nossa equipe.

Na enorme cozinha da escola, com suas enormes panelas, o cheiro do vapor e dos ovos cozidos. Descascávamos centenas deles. Às vezes trabalhávamos também no refeitório.

No refeitório, almoçávamos e tomávamos lanche, pois ficávamos o dia todo na escola e às vezes nem queríamos voltar para casa, porque era bom ficar na escola.

E o cheiro de terra úmida que as aulas de Jardinagem proporcionavam e que amo até hoje e o de madeira e serragem da oficina de Artes Industriais, que me davam tanta vitalidade.

Que delícia tornear a madeira e sentir, de cada uma, o seu cheiro próprio. Chegou à escola, de caminhão, uma tora de Jacarandá da Bahia – e meus olhos se arregalaram, que linda! Com parte dela torneei um abajur e, com outra, fizemos um rádio – as meninas o trabalho de madeira, os meninos os circuitos. Não antes de elaborar o desenho técnico de frente, de perfil, os encaixes e de fazer a maquete em papelão. O rádio servia para as aulas de Desenho Industrial, Desenho Geométrico, Marcenaria e Eletricidade! Tudo integrado, conforme a proposta pedagógica.

Se quiséssemos fazer um cartão de convite para um bailinho íamos à Tipografia, que ficava num canto da oficina de Artes Industriais. Que trabalho – com pinça, catando cada letrinha e usando aquela tinta preta que deixava nódoas nas mãos e nos aventais.

Lembro-me do cheiro incrível que depois de dias saiu de um sanduíche de pão com mortadela que esqueci dentro do armário e da mancha de óleo que ele deixou – levei bronca da amiga com a qual dividia o armário. Hoje ela é madrinha do meu filho, sinal de que o mal foi remediado. Esse negócio de armário era muito bom, tínhamos nossas coisas pessoais, mas dava confusão, havia armários arrombados, trocas constantes de flautas, e em uma dessas perdi a minha e acabei ficando com uma ruim e desafinada.

Essa mesma amiga e eu demos umas pichadas numa parede do corredor da escola e nosso castigo foi repintar a parede, o que fizemos estoicamente num sábado de manhã e até que foi divertido.

Numa das viagens para o interior com o Coral, pulamos a janela, à noite (vestindo roupa por cima do baby doll), para encontrar uns meninos da cidade que nos esperavam do lado de fora do dormitório e isso nos valeu suspensão e retorno antecipado de trem a São Paulo (acompanhadas de algum professor) e, claro, tivemos que explicar para nossos pais esse retorno antes da hora.

Voltamos a escapulir à noite na nossa viagem de formatura de ginásio ao Pico do Itatiaia. Os chalés eram divididos para meninas e meninos, mas como isso separava as turmas, fugíamos à noite para o chalé dos meninos. Fazer o quê?… Jogar cartas, dominó… Singelo assim, mas preocupante para o nosso professor de matemática, o Zago, que na verdade era poucos anos mais velho, recém-saído da USP.

Grande Zago. Grande no seu envolvimento com as aulas, os alunos, a matemática. Ele nos conduzia ao prazer de descobrir um teorema, como se nós mesmos o tivéssemos formulado. Embora eu tenha aprendido pouco da matéria, foi o professor que mais me ensinou. Não é um contrassenso: o Prof. Zago ensinou pela via mais importante para um educador – pelo exemplo. Se não aprendi a calcular, aprendi o compromisso com o trabalho, o interesse pelo que se faz, como se faz, porque, para quê. O professor dava risadas conosco, mas também passou maus bocados: nossa turma era alegre, irreverente e tinha “sarristas” de primeira ordem que adoravam vê-lo enrubescer. Assim, o professor também é protagonista de algumas das nossas boas histórias, além de ter estado conosco na viagem de formatura, como sempre envolvido até o pescoço.

Das várias energias do Vocacional, duas eram as mais vibrantes, pelo menos para mim.

A primeira, a de Artes Plásticas e da Profa. Yole Di Natali. Ela nos conduzia com delicadeza pelo mundo das superfícies, dos pincéis, das cores e das misturas. Eu era pobre em minhas tentativas, lutava para fazer uma xilogravura ou uma escultura que prestasse e tinha muita admiração pelos trabalhos de alguns colegas – e de fato alguns viraram artistas. Nessa área de artes, havia para todos os gostos – todos os materiais, todas as formas – e nossos olhos se encheram com tudo isso e tudo isso escorreu para os nossos espíritos e muitos de nós, tenho certeza, amou arte dali por diante. Uma vez, uma colega e eu, sem dinheiro, entramos e saímos pela porta dos fundos do ônibus, só para poder chegar à Bienal, no Ibirapuera, e curtir arte.

Anos mais tarde, já adulta, aproveitei um tempo livre e resolvi ir ao MASP. Ao entrar, um guarda disse, para minha surpresa – ‘sua mãe e seu irmão também estão aí’. De tanto nos ver ao longo dos anos, sozinhos e às vezes juntos, o guarda nos reconhecia, o que eu nem podia imaginar. Naquele dia, minha mãe, meu irmão e eu, coincidentemente, sem sabermos um do outro, nos encontramos no MASP. Durante bons anos trabalhei ali perto e em vez de ir a um restaurante almoçar, ia ouvir os Concertos do Meio Dia que o MASP oferecia durante a semana ou olhar os quadros.

A outra fonte de energia do Vocacional era a Educação Musical. Lembro-me da quantidade de instrumentos que ocupavam a Sala de Música. Eu gostava especialmente das Aulas de Audição: a partir da audição da uma música, tínhamos que descobrir os instrumentos, os que faziam a linha melódica e os que faziam o contraponto e, a partir das sensações evocadas pela música escrever uma redação e às vezes elaborar um desenho. Tudo integrado, de novo!

Dois professores tocavam profissionalmente e às vezes os alunos que estudavam música em conservatório se juntavam a eles e faziam deliciosas sessões lá na escola.

Flauta era matéria obrigatória. Leitura de partitura, eu não gostava, fingia que lia e tocava de ouvido. Não sei como fui elevada à condição de membro do conjunto de flauta regido pelo colega (hoje maestro) Fábio Mechetti. Fui um desastre assumido e nunca mais toquei.

O coral era uma delícia – ‘Olha a rosa amarela, rosa…!’… ‘Amendoim torradinho, tá quentinho!’… “É este Jesus o rei que anuncia a paz a quem Deus quer bem…”. E o hino da escola: “Do GV trago o espírito, sempre na mente, no coração, estará!”.

Dos sons da escola havia um que não se ouve mais, som que se tornou obsoleto: o da máquina de Datilografia. Em Práticas Comerciais, demos as primeiras dedilhadas – plac, plac… O Prof. Carlos era legal, nos ensinou a preencher cheques, a fazer livro-caixa. E com estes ensinamentos nós, catataus de 12, 13 anos, nos revezávamos em equipes para administrar a Cantina da escola, o Almoxarifado onde eram vendidos o material escolar e o tergal dos uniformes e o Banco Escolar. Nós tínhamos um Banco! Com direito a cheque! Gerido por nós (e até desfalcado por nós, o que rendeu um julgamento, um tribunal, uma espécie de CPI para apurar os fatos). A teoria e a prática integradas.

Assim, os cheiros nos tomaram, os olhos ficaram repletos, os ouvidos se encheram de música e nossas mãos, então, não pararam de trabalhar – torneando, lixando, pintando, cozinhando, amassando argila, tirando praga das plantas, desenhando, construindo… Manufaturávamos o tempo todo. Até hoje, se não faço algo com as mãos, me desequilibro.

Identifico-me com o que diz o Guilherme Arantes em seu depoimento, sobre ter-se tornado o ‘porquinho prático’ a partir do Vocacional. Pinto paredes; faço um preparo especial da cal de pintura, assento vidros, azulejos, conserto ferro elétrico, pedal de máquina de costura, instalo chuveiro, reformo móveis, encapo sofá, faço cortinas, fiz muitos anos de cerâmica e aprendi um pouco de mosaico e de artesanato de juta com retalho.

Talvez venha dessa época também a mania de ser trapeira: não posso passar por uma caçamba bem fornida, com restos de boa madeira, azulejos antigos quebrados, amostras de assoalho… Ou pelo lixo deixado pelas famílias em mudança, na porta dos prédios. Já achei maravilhas, apesar dum tantinho de vergonha por estar revirando coisas na calçada. Tenho dois bandôs torneados, de linda madeira, do tamanho exato das janelas de demolição que instalei na minha casa da roça. Tenho uma cadeira austríaca legítima (com selo) que catei no lixo. E outra cadeira, de madeira e palhinha, que pintei de ‘vermelho goya’ e ficou igual àquela do Van Gogh. Se eu tivesse uma Kombi velha e um galpão, seria uma mulher feliz.

Parte dessa mania vem, sim, da época do Vocacional, porque lá víamos as possibilidades das coisas, as transformações possíveis. Outra parte é genética: meu irmão cata coisas do lixo e minha mãe também. Ela vê engrenagens de ferro envelhecidas, monta uma “escultura” e pendura na parede da sala.

No Vocacional vivíamos momentos de burburinho e também de concentração. Concentração nos laboratórios de Biologia, Física, Química, quando conduzíamos as experiências. Nas ruas, espalhados pelo bairro, sentados nas calçadas, desenhando com atenção. Desenho de observação. Treinamento do olhar. Descoberta do todo e do detalhe. Fiquei emocionada quando vi no acervo do CEDIC (centro de documentação da PUC) fotografias feitas pela professora Yole dos nossos desenhos da Igreja do Brooklin.

Desde o primeiro momento no Vocacional tive consciência de estar participando de algo importante. O primeiro ano foi para mim especialmente feliz. O clima era de liberdade e podia-se respirar à vontade. Os professores davam aulas gostosas e interessantes. A minha turma era alegre. Tudo parecia fluir.

Se em 1969 a ditadura impediu a continuidade da escola, não impediu a do seu espírito. Por isso estamos aqui, quarenta anos depois, transmitindo o que ele significou e significa para qualquer processo educativo, para que seja sempre bom, muito bom, ir para a escola.

Renata Gouveia Delduque

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