Depoimentos de Ricardo Campos Jordão
Advogado – Turma de 64 - GEVOA

RELATOS DE UM TEMPO QUE FOI MAS NÃO PASSOU I
Ricardo Campos Jordão
Visando colaborar de alguma forma com o seu pedido, abaixo estou relatando algumas passagens vividas no Vocacional.

Vou ver este filme. Está tudo bem focado. É só procurar lá dentro da mente. Ginásio Vocacional Osvaldo Aranha. Com certeza a melhor época da minha vida estudantil. Estava eu no inicio da adolescência. Da nossa casa na Rua Michigan até a Av. Portugal, o trajeto era feito de bicicleta. Uma poderosa e resistente bicicleta. Íamos três pessoas. Meu primo Armando nos pedais. Meu outro primo Toni atrás, sobre o bagageiro. E eu sentado sobre o guidão. Não havia a menor preocupação com o perigo, o inusitado, o diferente, o sem cabimento…Ao chegar no portão de entrada eu era o primeiro a saltar. Sempre a procura de algum amigo que já devia estar aguardando no pátio a hora de entrar para as aulas. O uniforme era composto de calça de brim cinza escuro, camisa branca de mangas curtas, agasalho cinza aberto no meio, com zíper e com o emblema GV na cor vermelha, no peito, do lado esquerdo. As meias, creio, eram na cor branca para acomodar os insubstituíveis tênis. Tínhamos armários individuais instalados ao longo dos corredores que eram próprios para guardar nossos objetos – pastas, uniforme de ginástica, avental para as aulas de artes plásticas e artes industriais, além de uma enorme quantidade de coisas que não tinham nenhum proveito imediato. O pátio coberto estava sempre lotado. Ali era o local dos encontros entre amigos, misturando-se com os funcionários e alguns professores que iriam começar a jornada. Nas aulas a minha equipe era formada por uma três ou quatro pessoas.

Lembro-me da fisionomia delas, porém, continuo péssimo em memorizar nomes. Com certeza lá estava o Eduardo Marafanti (cabelos lisos sobre a testa) e o Antonio Grisi (exímio instrumentista de violão). Decidimos batizá-la com o nome mais charmoso e importante da época: “Equipe Alvorada” Havia até o desenho num papel cartolina simbolizando o Palácio com seus arcos em forma de “U” (querendo fazer referência ao Palácio do Governo, em Brasília, que estava costumeiramente estampado nos jornais e revistas, fazendo já a sua fama). Das meninas, posso lembrar de muitas fisionomias e poucos nomes. Silvana Cappannari e Maria Regina Vieira da Mota. Tínhamos anotado no caderno os dias com as respectivas aulas e horários. Posso recordar de algumas; português, matemática, estudos sociais, artes plásticas, artes industriais, economia doméstica, práticas comerciais, ciências, educação sexual, educação física, inglês, educação musical, teatro e orientação pedagógica. Na matéria de estudos sociais, me recordo que os alunos do primeiro ano estavam envolvidos com o estudo da Comunidade (bairro e cidade).

Lembro numa aula de artes plásticas estar sentado sobre a guia da calçada da Av. Portugal, em frente ao prédio do Vocacional, com uma prancheta, lápis e algumas folhas de papel em branco, para fazer o desenho do prédio e das casas ao lado. Tudo em perspectiva! No segundo ano, o estudo era sobre o Estado de São Paulo. Fomos viajar para a cidade de Barretos, de trem. Conhecemos, entre outras tantas coisas, o Vocacional que também se instalou naquela cidade. No terceiro ano, o estudo se voltava para o Brasil. Tivemos a oportunidade de viajar para Minas Gerais. Imagine, conhecemos o interior da Gruta Maquiné, seguidos por guias que iluminavam o caminho com lanternas… Nesta viagem fomos, como sempre, acompanhados por cultos e dedicados professores que a todo instante enriqueciam nossos momentos com ensinamentos acerca da vegetação, do relevo, da formação rochosa, da população, das atividades comerciais e industriais e um cem número de informações que até os dias atuais nos servem de apoio. E tudo isso, faziam com o maior respeito, com o maior interesse e carinho, conseguindo alcançar os melhores resultados da sagrada missão de educar, de ensinar. Pessoas que se dedicaram verdadeiramente para o Magistério, feito com competência e amor. São pessoas inesquecíveis, especiais em nossas vidas.

No quarto ano, o estudo se voltava para o mundo. Que pena, agora as viagens foram interrompidas de vez. Não era por falta de interesse e sim por falta de condições financeiras para um empreendimento de tamanho vulto. As aulas de artes industriais eram aguardadas com muita ansiedade. Um salão enorme abarrotado de máquinas dos mais diversos tipos, bancadas, ferramentas, esquadros, madeiras, e tudo sob a supervisão de professores por demais conhecedores do ofício. Era tudo de bom…E tudo funcionava com a maior perfeição. Na aula de ciências, por vezes tínhamos que dissecar algum bicho. Ora o sapo era a bola da vez, ora o rato branco era posto na mesa de alvenaria revestida de azulejos da mesma cor para ser objeto de estudos. Já na aula de práticas comerciais, estou me vendo diante de uma máquina de escrever Remington, treinando a digitação, sem olhar para o teclado – “a,s,d,f,g espaço. a,s,d,f,g espaço, a s d f g espaço.” Quem poderia esquecer uma passagem dessa! Na aula de economia doméstica me recordo mais do ambiente, do local, porque tínhamos também que aprender a acomodar os móveis, a decorar a sala, a dividir os espaços. Sei que havia um momento destinado ao estudo da etiqueta e aos afazeres na cozinha. Hoje sou um homem que adora sua casa e adora cozinhar.

Será que isto é resultado também dessas experiências? Na aula de educação física, tínhamos ginástica de solo, basquete, handebol, corridas, salto em altura e assim por diante. O Professor era um craque no basquete. Não havia bola que fosse por ele arremessada e não caísse na cesta. Também treinava o dia todo, todos os dias!!! Lembro de ter feito um trabalho em equipe sobre as Olimpíadas, com uma capa que era o desenho símbolo daquela competição (arcos entrelaçados coloridos) Ficou um luxo. Tiramos a nota máxima. Na aula de música, estou enxergando o “diapasão” e os alunos cantando o Hino Nacional. Tenho orgulho de desde aquela época saber com segurança a letra do nosso Hino, um dos mais belos se comparado com os Hinos das outras nações. As matérias básicas como português, havia muita leitura de livros de autores famosos, gramática, redação e interpretação de texto. Matemática lembro pouco, pela minha falta de afinidade com a matéria. Sei que sou bom em percentuais, em razão da minha profissão… A nossa orientadora educacional era para nós – jovens adolescentes, o símbolo da mulher bonita e desejada. (Será que posso dizer isto?) Muitas vezes aprontávamos alguma encrenca apenas para ter um encontro forçado com ela…Coisas de crianças levadas! Ah, merece também registro o fato de o Vocacional proporcionar num amplo refeitório o almoço que era servido sobre pratos em bandeja. Fazíamos a fila para entrar e todos portavam um cartão para que fosse feita alguma anotação. Acho que era o dia da semana. Não lembro bem. Todavia, da comida… essa eu lembro. Era farta, elaborada com capricho, uma delícia!!
No final do dia, após ter passado na escola o período da manhã e quase toda a tarde, retornávamos para as nossas casas, cansados, mas felizes.

Éramos felizes e sabíamos!!!

De vez em quando, muito de vez em quando, eu e meus amigos – Olha lá o Antonio Grisi Sandoval, saíamos antes do horário para ir até o Parque do Ibirapuera alugar um barquinho a motor para passear no lago. É, é este mesmo lago que hoje não se pode sequer chegar perto pela poluição de suas águas. Numa dessas “matadas de aulas” conseguimos fundir o motor do barco, ficando parados no meio do lago, pedindo socorro para sermos puxados até a margem. Foi o maior sufoco, além da vergonha. O dono do barco disse que iria cobrar o conserto. Imagine, logo pra quem (nós, duros de pedra, sem um tostão…)

Tenho saudades daqueles tempos em que a vida não era tão complicada. Bastava viver. Era muita alegria, entusiasmo, e um mundo todo para ser descoberto.

Sei que sou uma pessoa feliz. E tenho a certeza que a experiência colhida por todos os alunos que vivenciaram a Era Vocacional são pessoas também felizes, pois tiveram na sua formação as melhores referências de ensino já praticadas neste País. Penso que também por isso, somos responsáveis pelas mudanças necessárias em prol do bem comum.

Vamos tentar unir nossas forças e nos concentrar num trabalho que possa, de alguma forma, manter a chama do Vocacional sempre acesa, viabilizando a continuidade dos exemplos que nos foram ofertados pelos nossos dedicados Professores. A eles toda a nossa imensa gratidão.

Ricardo Campos Jordão
(Lembrar da época do Vocacional é praticar terapia para a alma. Esta foi mais uma passagem marcante e divertida. )

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RELATOS DE UM TEMPO QUE FOI MAS NÃO PASSOU II – DO TAXI
Ricardo Campos Jordão
Olá Pessoal. Cada vez que o Vocacional surge em nossa memória, mais “causus” lembramos. Agora, a fita parou numa apresentação musical.

Apesar do ocorrido não estar diretamente ligado com a Escola em si, o fato envolveu alunos do Ginásio, naquela época em que éramos todos felizes e sabíamos.
Assim, este relato vai despertar um pouco mais o lado gostoso, menos comprometido da vida. Momentos que temos vontade de repetir pela graça e pelo divertimento. Pelos risos soltos que estão amparados pela sagrada liberdade – própria da juventude.

Pois bem. naquela época, o Canal 7 – TV Record, ainda se localizava perto do Aeroporto de Congonhas. Havia um programa que estava promovendo um encontro de conjuntos musicais, do tipo bandas de rock, com guitarras, baixo, bateria e outros instrumentos mais, com farta distribuição de prêmios para os vencedores. Concorrendo, estava um conjunto formado por alunos do GV e que iria se apresentar naquele dia. Lógico, lá estava eu e mais uns cinco fãs, alunos do Vocacional, prontos para agitar a torcida em prol dos amigos músicos. Para tanto, mandamos fazer uma faixa de pano com o nome do conjunto para ser exibida no ato da apresentação. Assim que foi divulgado no palco que seria a hora de entrada do conjunto, todos os seis fãs se agitaram na torcida, desembrulhando com desenvoltura a tal faixa com o nome do conjunto e gritando já ganhou, já ganhou, já ganhou. O conjunto se apresentou. Apesar da gritaria, não fez feio, mas também não empolgou. Foi meio xoxo. Porém, para nós, só o fato de estarmos lá já era o bastante. Rimos com as infindáveis bobagens praticadas durante o show e nos divertimos a valer!!

Na hora de voltarmos para a Escola, decidimos fazer uma vaquinha para pagar um taxi que pudesse nos levar todos de uma vez só. Naqueles tempos circulavam carros da marca Chevrolet que eram bem espaçosos. Verdadeiros sofás na sala. Não demorou muito para aparecer a tal barca. O automóvel lembro muito bem, tinha cor verde bandeira, impecavelmente lavado e brilhante. Era tipo sedan, 4 portas. O motorista um senhor idoso, muito bem arrumado. Antes de abrirmos as portas, o motorista caprichoso perguntou se era para levar todos. Ao saber que sim e depois de muita insistência nossa, resolveu ceder e nos levar. Posicionei-me na parte traseira que era mais apropriada para o que eu levava nas mãos. A angústia gerada pelo fato de sermos seis jovens (de tamanho avantajado) e o taxi de inicio não concordar com a corrida foi tanta que, no ímpeto de ser o primeiro a entrar no veículo, abri imediatamente a porta e empurrei para dentro do carro, numa posição meio inclinada, as varetas de madeira que seguravam o pano da faixa enrrolado. Na pressa, não deu outra. Com aquele empurra-empurra para entrar no carro, foi a vareta lançada direto contra o teto do automóvel, furando e rasgando o forro por uns bons 15 cms, caindo o pano em forma de língua. Aquilo foi a verdadeira imagem do inferno. O dono do automóvel ao ver aquela avalanche de gente entrando no seu “antes lindo carro” e em seguida ao ver o estrago feito no forro pela tal faixa perdeu de imediato o controle, largou de lado toda a sua polidez e começou a xingar palavrões de todo tipo, filhos de toda espécie, até que fomos expulsos do automóvel. Passado o grande susto, pois além do dano não tínhamos como pagar os estragos, as risadas se sucederam até não se agüentar mais. Hoje, mais de 4 décadas do ocorrido, ainda guardo vivo na memória os momentos em que fomos os protagonistas do ato, da cena, da própria vida.

Bendito Ginásio!!
Ricardo Campos Jordão

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RELATOS DE UM TEMPO QUE FOI MAS NÃO PASSOU III – AULAS DE TEATRO
Ricardo Campos Jordão
Olá Pessoal. O filme do GV é rico em “causus” . Agora, na tela, as aulas de teatro.

Imagine, anos 60, falar para os amigos que não estudavam no Vocacional que eu tinha aulas de teatro no Ginásio… Nem todos acreditavam. Era preciso dar detalhes, de como era, o que se fazia, o que se aprendia, quem era o professor, e assim por diante. Este fato gerava um certo orgulho de minha parte, além de dar um certo destaque na Turma. Lembro que na primeira aula, os alunos estavam acomodados nas cadeiras postas em circulo, tendo uma delas sido colocada no centro, bem diante do professor. Do Mestre, de meia idade, altura mediana, apenas guardo sua fisionomia na minha memória e, como sempre, escapa-me o seu nome. Sei que era uma pessoa importante no meio teatral, tendo, inclusive, sido posteriormente autor de novelas na Rede Globo. Detentor de uma voz forte e empostada, dirigia-se ao aluno sentado no centro e lançava a primeira pergunta. Fale-me de você. Quem é você? Ora, tínhamos vergonha de dizer até coisas simples como o nome e idade, imagine uma pergunta tão abrangente como aquela? Muitos travavam de vez. Outros, mais desinibidos, ensaiavam uma resposta sem muita consistência. Ou seja, a tal aula de teatro era mesmo indispensável para se alcançar uma desenvoltura no Grupo. No inicio, não foi nada fácil. Porém, com o andar da carruagem, passamos a gostar daqueles encontros. O Professor, não sei por qual motivo, foi substituído por outro, também conhecido ator de novelas. Deste, o nome apareceu. Luiz Carlos Arutim.

Era uma pessoa agradável, de estatura baixa, com voz poderosa e fartos bigodes pretos. Chegamos a ensaiar uma peça inteira de teatro. Depois de alguns testes, foram selecionados alunos que iriam atuar diretamente na peça com o nome “A BRUXINHA QUE ERA BOA”. Da peça, como bom adolescente, lembro que a tal bruxinha era uma menina linda, que despertava suspiros pela sua beleza e graça. Fui participar da montagem do palco. Iluminação, cenários, som e assim por diante. A apresentação foi um sucesso. Os pais, como era de se esperar, aplaudiram de pé. As aulas foram tomando um gosto especial, e muitos colegas, já crescidos, derivaram para as artes cênicas. Infelizmente, muitos anos depois, soube que o Professor Luiz

Arutim, que atuava como ator numa novela da Globo veio a falecer de uma forma trágica. Fogo no seu apartamento! O destino de cada um só mesmo Deus sabe…
Deixou, como legado, o ensino da arte teatral, com muita competência e garra. Obrigado Luiz Arutim.

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RELATOS DE UM TEMPO QUE FOI MAS NÃO PASSOU IV – VIAGEM AO XINGU
Ricardo Campos Jordão
Para iniciar a tomada da cena, é preciso explicar, em apertada síntese, alguns detalhes. Meu pai, na época, oficial da FAB, tinha me prometido que algum dia iria promover uma viagem ao Xingu, levando alguns professores do Vocacional para conhecerem aquela maravilhosa região do Brasil Central. Iria planejar uma estada junto aos Irmãos Vila Boas, sertanistas que lá se instalaram e que dedicaram as suas vidas com trabalhos ligados aos índios brasileiros.
Pois bem, o dia chegou!

Fui, juntamente com papai, convidar os Professores para a tal viagem. Lógico que pela oportunidade que se descortinava, vários deles se propuseram a aceitar o convite. Os preparativos para a viagem consumiram diversas reuniões nas quais foram debatidos um cem número de detalhes, os locais a serem visitados, os equipamentos para melhor registrar aqueles momentos, as roupas recomendáveis, as vacinas, os cuidados exigidos, os acompanhantes, os alojamentos e assim por diante.

No dia marcado para a partida, estavam todos lá. Menos o meu pai. É que o Brigadeiro o escalou para uma outra viagem, numa missão diferente, e ele não pode nos acompanhar. No seu lugar, um comandante de meia idade com um co-piloto norte americano. Depois das despedidas regadas com lágrimas das pessoas que ficaram, o avião decolou. A viagem foi feita num lendário avião da FAB, Douglas, C-47, de dois motores a hélice, com interior contendo apenas um banco verde musgo de madeira comprido instalado junto às janelas. Causou uma certa frustração pelo desconforto e pela posição “de costas” para as janelas…Este avião foi também usado com bastante freqüência pelo Correio Aéreo Nacional.

Junto à bagagem, levávamos vários apetrechos para presentear e fazer trocas com os índios. Sabíamos daquilo que mais gostavam: coisas pequenas, coloridas, de alguma utilidade. Canivete, relógio, bijuteria, cigarros e outras “cossitas mais”. O pacote de cigarros estampava a marca Mistura Fina. O maço creio que era numa cor clara, entre o amarelo e o abóbora. Acho que é isso.

O avião fez sua primeira parada na Ilha do Bananal. A beleza vista de cima, com céu de brigadeiro, era de encher os olhos. Ficamos hospedados no Hotel “JK” de fundos para o Rio Araguaia. Por incrível que pareça, a tribo Carajás estava instalada ali perto. Não raro, os índios iam satisfazer suas curiosidades visitando a mesma área do hotel. Eram índios já acostumados com “homem branco”. Sabiam falar de futebol e até da moeda norte americana… É sério. Estavam uns vestidos com bermudas e sem camisa, chinelos do tipo havaianas, com cocar de penas coloridas. Outros com calças largas e descalços. Ficavam assim perambulando, pra lá e pra cá. Tive oportunidade de fazer algumas trocas com artigos indígenas – artesanatos, pulseira de penas de aves, nas cores amarela, azul e vermelha, além de um tacape. Pra quem nunca foi “índio” tacape é um instrumento parecido com um bastão, utilizado em lutas. Era todo trabalhado e revestido com palha em diversas formas com desenhos.

No dia seguinte, fomos andar de barco a motor no Rio Araguaia. E pescar. Lembro que a minha emoção era fisgar o peixe e levá-lo para saboreá-lo no almoço. Mal sabia eu. A quantidade de peixes era enorme e quase não dava tempo para retirá-los da água e novamente lançar a isca. (Verdade. naquela fase não conhecia a tal conversa de pescador…)

Passamos na ilha do Bananal apenas dois dias. Tínhamos que prosseguir a viagem com destino ao Parque Nacional do Xingu. Nesse ponto, estou imaginando que a tal viagem deva ser contada em capítulos. É bastante rica em fatos e não quero cansar e nem tampouco abusar da bondade de meus eventuais amigos leitores.
Assim, caso exista alguém que – como um sobrevivente, queira saber o final da estória, por favor se manifeste. Caso contrário, “entrou por uma porta e saiu pela outra. Quem quiser que conte outra”……..

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VIAGEM AO XINGU - CAPITULO I – DA ILHA DO BANANAL AO PARQUE NACIONAL DO XINGU
Ricardo Campos Jordão
Após os dois dias passados na ilha do Bananal, arrumamos nossas malas em direção ao Parque Nacional do Xingu. A avião taxiou até se posicionar na cabeceira da pista. Deu uma leve virada à direita e uma rápida parada. Imediatamente roncou os motores na sua potencia máxima. Começou a correr por toda a extensão da pista e decolou. Puxa estamos novamente voando sobre aquela imensa área verde recortada por braços de rios. No avião as pessoas estavam conversando animadamente sobre os acontecimentos vividos na ilha e a grande vontade de chegar ao Parque. Embaixo, via-se apenas a selva, com copas de árvores altíssimas e agrupadas. Era mesmo uma região para ser desbravada. O tempo estava muito bonito. Com sol e sem nuvens.

Para aproveitar melhor nosso vôo, um jovem militar que nos acompanhava passou a discorrer sobre alguns dados a respeito do lugar que em breve iríamos conhecer nessa nossa viagem. Iniciou comentando que “o Parque do Xingu foi criado no Governo Getúlio Vargas com o objetivo de ser a primeira reserva indígena brasileira. Foi oficializado em 1961. Sua área territorial atinge cerca de 30 mil quilômetros quadrados. A expedição Roncador-Xingu, iniciada nos idos de 1940 pela Fundação Brasil Central foi o marco inaugural dos trabalhos de desbravamento do Centro-Oeste e da Amazônia, então desconhecidos.” Ressalvou para aqueles que o escutavam atentamente: “a oportunidade desta viagem é única. Vejam os senhores que logo estaremos reunidos com pessoas da maior importância para que seja alcançado o êxito desse processo de preservação dos costumes e da cultura indígena. Todas trabalham integradas, em equipes. Porém, o Sertanista Orlando Villas Boas, que é paulista, ao lado dos irmãos Cláudio e Leonardo coordenam todo o trabalho”. Naquela época, agora sabemos, era o começo de tudo. Não tínhamos ainda conhecimento da dimensão daquilo que seria ainda realizado por esses grandiosos humanistas. A relevância dos feitos em prol da população indígena foi de tal modo destacada que os irmãos Villas Boas foram indicados duas vezes ao Premio Nobel da Paz. Exemplos de homens. Exemplos de brasileiros. Bem, mais isto é hoje. O atual. Voltemos para o ontem.

O avião começou a fazer uma curva para a esquerda e ao longe já avistávamos algo parecido com uma ilha habitada no meio da selva. Perguntamos ao militar que estava sentado à nossa frente. Alí o que é? Prontamente respondeu: Estamos chegando. A euforia foi geral. Todos se posicionaram nas janelas. Queríamos ver o tão anunciado Parque. O avião já sobre a pista ainda em fase de acabamento de construção começou a descer lentamente, enquanto percebíamos que ao longo dela se posicionava uma grande quantidade de pessoas, como se estivessem esperando o avião pousar. O militar se adiantou às perguntas e disse: “São índios habituados a receber os aviões da FAB que sempre traz mantimentos, remédios e outros artigos de necessidade da população local”.

A essa altura, o avião encostou suas rodas na pista, dando um solavanco e deixando um rastro de poeira dos pneus no chão. Assim que se posicionou para o local de estacionamento, o comandante cortou os motores. Poucos minutos após, abriu as portas. Neste instante, estávamos aguardando, em fila, de pé, o momento para nossa saída. Os professores do Vocacional conversavam, animadamente, até que foi liberada a nossa volta à terra. Já podemos descer, disse o militar. O capítulo, por ora, aqui se encerra. Continuemos nossa aventura em novo capítulo amanhã.

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VIAGEM AO XINGU – CAPITULO II – DA CHEGADA AO XINGU
Ricardo Campos Jordão

 

Começamos a nos retirar do interior do avião. Havia no solo uma camionete comprida com três bancos atrás, um jipe e um trator puxando uma carreta. O homem que conduzia o trator, pela sua fisionomia, era indígena. As malas, as caixas com mantimentos e diversos outros objetos trazidos de São Paulo para o Xingu começaram a ser descarregados. O trator se posicionou de modo a facilitar a acomodação daquelas coisas todas. Na pista, nos aguardando, encontrava-se o Major Vahia, conhecido piloto de caça a jato da FAB, do tipo F-8 Gloster Meteor que para época era um verdadeiro Mirage. Ele já estava no Parque juntamente com outros militares a fim de coordenar os trabalhos ligados à implantação do sistema de abastecimento das aeronaves.

A FAB tinha um alojamento espaçoso, porém, também encontrava-se em obras. O major Vahia era um homem bem alto e magro, de bigode aparado. Usava um macacão cheio de bolsos e zíperes, na cor azul marinho, com um óculos escuros Ray-ban. Sua fisionomia era de uma pessoa serena e alegre. Após os cumprimentos dos militares, com as já conhecidas continências, o Major Vahia se dirigiu ao Grupo, apresentando-se e dizendo que ele seria o responsável para que tivéssemos todo o apoio necessário para uma estada proveitosa naquele local. O comandante de nosso avião, capitão Haroldo, cuja pessoa, soube posteriormente, era um piloto que tinha muitas horas de vôo no lendário T-6 (Tê meia) acompanhou o seu colega até o Jipe. Esse avião, T-6, foi projetado pouco antes do início da II Guerra Mundial e foi o treinador mais utilizado até hoje na formação de pilotos militares. Chegou a ser apontado ironicamente como “ame-o ou deixe-o” pelas suas características peculiares. Aqueles que o dominavam podiam se orgulhar, encher o peito e dizer. Sou um piloto de T-6. Era um avião monomotor, com vasta artilharia e que tinha uma agilidade incrível. Fazia rasantes e voltava aos céus em poucos segundos. Chegou a ser utilizado pela Esquadrilha da Fumaça. Bem… depois voltamos à aviação.

Os professores do Vocacional foram acomodados na camionete e depois numa Kombi que lá chegou. Estávamos felizes, mas cansados da viagem. Fomos direto para o alojamento. Na entrada, numa sala tipo estar, haviam duas poltronas, um sofá grande e diversos quadros na parede que mostravam as várias fases da construção daquele pólo. O quarto dispunha de duas camas de solteiro e dois criados-mudos ao lado. Sobre estes, abajures pequenos. Havia ainda um ventilador de pás no teto. Uma poltrona verde escuro abaixo da janela e um tapete de barbantes que mais parecia peça de artesanato, no chão. A vista dava para um jardim bem cuidado. O banheiro, apesar de pequeno, era exageradamente limpo e suficiente o bastante para nosso banho e nossa higiene pessoal. Devido o horário da nossa chegada esbarrar no almoço, pudemos deixar nossas malas nos quartos e depois seguir para o refeitório. O ambiente era agradável, com mesas redondas e bem postas. A toalha, era branca e sem barra trabalhada. Ventiladores estavam instalados nas paredes e deixavam uma brisa adorável no ambiente.

A comida servida era simples, mas bem saborosa. Naquele primeiro dia, arroz, feijão, peixe ensopado, purê e uma salada com diversos legumes. Para tomar, suco de laranja. De sobremesa um delicioso doce de leite com queijo e goiabada. Os pratos e talheres tinham estampado o símbolo da asa da FAB. Lembro que o garfo era grande e feito de um material mais pesado. Gostei tanto do talher que cheguei a pedir um conjunto de faca, garfo e colher para levar comigo. Tenho até hoje! A refeição seguiu seu curso com animadas conversas e risadas pela lembrança de algum fato pitoresco já acontecido na viagem. Lembro que tomamos um belo susto ao nos aproximar da pista de pouso. O nosso piloto, Cap. Haroldo, antes de embicar o avião para a descida, deu umas duas voltas em torno da pista. Achamos que havia ocorrido algum problema com a aeronave. Por isso, vimos na expressão da Professora de Ciências um medo que parecia contagiar a todos. Por que estamos dando voltas? Por que este avião começou a fazer um barulho diferente nos motores? Por que não chegamos logo? Enfim, uma série de porquês sem resposta, pois não sabíamos ao certo a razão daquilo. Mas, na hora, o engraçado foi a fisionomia de medo estampada no rosto dela. Rimos da situação sem confessar que o medo era comum a quase todos que se encontravam naquele avião. Os “turistas” claro!

Após o almoço, saímos para andar um pouco e já nos familiarizar com aquele local que seria nossa casa por mais uns dias. No pátio interno cercado por várias casas que se destinavam aos militares, havia uma grande árvore. Junto à ela, um macaco preso numa fina corrente. Era um sagüi. Mostrava seus dentes afiados e circulava de lá para cá sem parar. Parecia querer dizer alguma coisa. Nos aproximamos com cuidado. Logo perto, um papagaio já domesticado, falava de modo repetido e sem parar “DUCA, DUCA, DUCA” Estava numa gaiola aberta, com poleiro, presa na parede do terraço de uma das casas. Vimos também vários cachorros andando soltos tal como se ali fosse o verdadeiro paraíso. (E era). De novidade, o que nos chamou a atenção foi um tucano e uma arara. Nunca havíamos estado em contato direto, ao vivo e em cores, com aquelas aves. Lindas. Penas de um colorido infinito. A arara logo começou a gritar estridente. O tucano continuou a bicar um pedaço de mamão cortado ao meio. Lembramo-nos que naquele local tais fatos deveriam ser corriqueiros. Afinal a natureza estava ali presente e bem instalada. Assim, naturalmente, ficamos ansiosos por conhecer mais, mais e mais. A esta altura, o sol começou a se esconder, transformando o céu numa coloração diferente. Decidimos retornar ao alojamento para descansar um pouco, pois não muito mais tarde chegaria a hora de jantar. Os horários praticados no alojamento eram rígidos e devíamos cumprir as regras ali estabelecidas. No trajeto, cruzamos com o Major Vahia que ironicamente indagou: Como é, já viram a onça pintada? Todos nós, “com cara de paisagem”, sem saber se aquilo era sério ou não, dissemos incrédulos: Não…O Major replicou: Calma, vocês ainda verão. Amanhã tem mais. Muito mais.
Não percam o próximo capítulo.

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VIAGEM AO XINGU – CAPITULO III – ACORDANDO NA SELVA
Ricardo Campos Jordão

 

O relógio dispara a tocar. São 6:30. O sol começa a dar o ar da sua graça. Depois de uma noite silenciosa, apenas com os sons de grilos, sapos, de um ou outro pássaro e de latidos ao longe, peguei no sono, exausto. Dormi profundamente, sem lembrar naquela manhã se havia ou não sonhado. Sei disto porque normalmente sonho colorido e me lembro de algumas passagens ao me levantar. Não lembrava de nada. Dei uma longa espreguiçada. Estiquei bem os braços e dei um bocejo prolongado. Apesar de já estar de olhos abertos, custei um pouco para reconhecer que lugar era aquele. Isto fez com que logo me despertasse. Depois de tomar o meu banho, numa água morna, vesti-me e fui tomar o café da manhã. No caminho do quarto até o refeitório, encontrei alguns professores do Vocacional que também se dirigiam ao café. O café foi servido na mesa, com leite, pão, manteiga, suco de maracujá, e frutas da estação. As mesas foram aos poucos sendo ocupadas até a lotação do lugar estar completa. Naquela manhã, conforme as recomendações do dia anterior, deveríamos vestir roupas leves e, se possível, portar chapéu, pois estava programado um passeio de barco para conhecermos a região. Foi também recomendado que levássemos nossas máquinas fotográficas.

O calor que estava fazendo naquela hora era bastante e já dava mostra do que iríamos passar no restante do dia. A FAB, no alojamento, dispunha de quatro barcos, sendo dois em tamanho grande, com capacidade para até 8 pessoas e dois menores com capacidade de quatro pessoas. Para nosso deslocamento foram separados os barcos grandes, pois além da nossa turma, outros militares iriam nos acompanhar, como instrutores. Na saída do café já estavam aguardando no pátio os veículos que iriam nos conduzir até o passeio. Ao chegar, um a um foi se instalando e recebendo as boas vindas dos condutores dos barcos. Dentro dos barcos, já acomodados, recebemos as instruções sobre alguns procedimentos de segurança. Enquanto o barco estivesse em movimento não seria permitido ficar de pé. Deveríamos evitar nadar em razão de o rio, naquele local, ser farto em piranhas. Não seria liberado lançarmos qualquer objeto na água para não poluir o rio e nem qualquer tipo de alimento para os bichos que estivessem próximos à margem e ao barco. Depois de uma conferência entre os pilotos das embarcações, os motores foram acionados e se deu a partida.

Legal!! Tudo para nós era uma imensa novidade. O lugar era de uma beleza indescritível. O sol já se mostrava forte e nos forçava a manter os chapéus. Começamos a trocar impressões sobre aquilo que deveríamos ver. O barco da frente era comandado pelo Oficial Arnaldo. O de trás pelo sargento Messias. Depois de uns vinte minutos subindo o rio, a rotina das conversas a bordo foi quebrada. É que a professora que estava sentada à direita localizou um jacaré, deitado à margem, de boca escancarada, tomando sol. Sobre ele, alguns pássaros pequenos. O corpo do jacaré parecia imóvel. Neste ponto, alguém disse: E se nós pudéssemos ficar perto do jacaré e jogar cinzas de cigarro sobre os seus olhos. Será que ele iria se mexer? Ninguém respondeu. Preferimos tirar fotos do animal que a esta altura fechou sua enorme boca.

Mais a frente, vimos um cardume de peixes sendo seguido por ariranhas. A movimentação da água foi que nos chamou a atenção. Deles não pudemos registrar com fotos. Que pena. Nas margens voavam em grupo uns pássaros de penas brancas e bico longo. Receberam nossas atenções e mais fotos. Após vencermos mais alguns quilômetros de rio, os barcos encostaram na margem e pudemos descer um pouco. Naquela época, por não ser de chuvas, o rio estava mais baixo e nas margens se formavam verdadeiras praias. Agora, o inusitado. Sobre o que podemos chamar de areia estavam pousadas centenas de borboletas de cor amarela. Juntas, formavam um mar colorido, tal como se a margem estivesse pintada de amarelo. Era uma coloração viva. Mais fotos foram tiradas. A esta altura alguém espalhou um pouco da areia tentando afugentar as borboletas. Incrível! Elas permaneceram ali, voando a uns vinte centímetros do solo, todas voando em círculos.

Era uma beleza ver aquela cor em movimento. Fotos e mais fotos. A esta altura o piloto do nosso barco mostrou um rastro na areia. Em seguida, próximo dali, avistamos uma tartaruga de tamanho avantajado. Ele explicou que a tartaruga procura as margens do rio para botar ovos. Por isso deveria existir ovos enterrados. É só procurar. Lógico, foi o que fizemos. Era um tal de afundar nossas mãos na areia, ora aqui ora ali, ora mais distante, um verdadeiro garimpo. Ouviu-se um grito. Achei!!!!! Fomos todos ver. De fato tinham sido colocados uns seis ovos de tartaruga, dentro de um buraco. É que depois de postos, a tartaruga começa a cavar para escondê-los. O piloto do outro barco, Messias, ao ver os ovos disse: eu já comi não só os ovos como também sopa de tartaruga. O que? Sopa de tartaruga??? Pois é, aqui na mata, por vezes temos isto de cardápio. Mas como se faz? Logo alguém mais interessado perguntou.
É bastante simples. Depois de morta e limpa, reserva-se algumas partes de seu corpo, mergulha-se num caldo temperado e põe-se a cozinhar no fogo. E, tudo isso, aproveitando-se o próprio casco da tartaruga que vai deitado, de bruços, sobre o fogo. É muito bom. Puxa, jamais imaginei que isto seria possível, disse admirado. Alguém, ao meu lado, soltou um sonoro HUM…, com ar de nojo.

Depois do encontro do buraco com ovos e após tê-los sentido em nossas mãos, devolvemos os ovos no mesmo lugar, recobrindo-os com areia e tapando o tal buraco. Voltamos, numa conversa animada ao barco. Na volta ao alojamento pudemos ainda fotografar uma anta nadando e depois subindo no barranco do rio. Foi uma agitação só. Logo em seguida, a uns 500 metros abaixo, um bando de capivaras apareceu ruminando nas margens. Acho que era um bando de 10 ou 20. Outra vez de ouviu o clicar das máquinas. Vi um professor indagar ao nosso comandante do barco. E as onças? Chegam ao rio? Chegou a ver alguma? A resposta veio logo. Bem… onça, onça, ainda não vi. Sei que estão por aí. Confesso que tenho medo. Mas jaguatirica, cansei de ver. Por aqui vivem também a lontra, o tamanduá-bandeira, a cotia, e uma série de aves como o macuco, o flamingo, o gavião-real. Isto aqui é o paraíso natural da terra.

A conversa se desenrolava solta e o barco seguia firme em direção ao nosso destino final. A meia hora do tempo estimado para nossa chegada, fomos ainda surpreendidos por pequenos veados galheiros atravessando o rio e depois seguindo correndo por suas margens. Agora a conversa no barco tomou um ritmo desenfreado. Todos queriam falar ao mesmo tempo, dar a sua impressão daquilo que havíamos visto, da beleza do lugar, da riqueza de experiências proporcionadas por aquela viagem. Os barcos começam a diminuir o ritmo dos motores e logo se aproximaram do ancoradouro para nosso desembarque. Neste dia, pudemos colecionar inúmeras fotos para o nosso álbum. Fotos que jamais resistirão incólumes ao tempo. Na verdade, não precisaremos delas para lembrar das imagens vividas nesta viagem. Estão registradas de forma permanente em nossa memória. Junto com as melhores lembranças de fatos e acontecimentos de nossa vida. Voltamos ao alojamento e no resto do dia descansamos. É que amanhã está sendo programada a visita à aldeia Kamayurá. Estou muito ansioso. Valerá a pena aguardar.

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VIAGEM AO XINGU – CAPITULO IV – EM DIREÇÃO Á ALDEIA KAMAIURÁ
Ricardo Campos Jordão

Depois do passeio feito ontem, de barco, à noite custei a dormir. As imagens de tudo aquilo que vivemos voltavam à minha mente, me deixando aceso e desperto. Aos poucos, porém, o sono veio. Mais uma vez, não lembro se sonhei. Acho que não. Afinal, porque sonhar dormindo se estávamos vivendo aqueles sonhos todos acordado? Depois do café, fomos parar numa ampla sala para ouvir a respeito daquela visita que era por todos nós esperada. Iríamos conhecer a aldeia dos índios Kamaiurá. Sentamo-nos em cadeiras do tipo escolar.

Diante de nós, estava o Ten. Montenegro, o qual passou a relatar alguns dados a respeito daquela visita.
- Bom dia, senhores. Como é? Estão gostando, aproveitando bem esta viagem ao Xingu? Pelos nossos sorrisos estampados entendeu logo nossas respostas. Pois bem, hoje está sendo programada a visita à aldeia Kamaiurá. Antes de partimos, o Major Vahia me pediu para fazer um breve relato sobre essa aldeia. Isto para que todos possam aproveitar melhor o passeio e chegar no lugar já sabendo alguma coisa.
Vou dar algumas informações sobre os índios Kamaiurá. Em 1942, com a criação do órgão federal Fundação Brasil Central, iniciou-se a abertura de estradas e o estabelecimento de acampamentos na área. Em 1946, os Kamaiurá atingidos por essa penetração passaram a ter contatos com os membros da expedição Roncador-Xingu, liderada pelos irmãos Villas-Boas. Recentemente, em 1961, o território que habitam converteu-se ao Parque Nacional do Xingu. Hoje em dia, a aldeia dos Kamaiurá se localiza cerca de dez quilômetros a norte do Posto Leonardo Villas-Boa, a aproximadamente 500 metros da margem sul da Lagoa Ipavu e seis quilômetros do rio Kuluene, à sua direita. A aldeia é composta por cerca de 400 pessoas.

Sua população tem uma relação muito forte com o rio, com os animais, com a floresta e a terra, cujos elementos estão relacionados com a religião, a cultura e o próprio modo de viver daquele povo. Na cultura dos kamaiurá, os senhores terão oportunidade de ver, a mulher tem a função de cuidar dos assuntos ligados à casa. Ela é responsável pela cozinha, roça, pela limpeza e pela comida. Além disso podem pescar e organizar as festas. Poucas, porém, desempenham papel de liderança dentro da tribo. A alimentação dos índios é baseada no peixe, na caça e na cultura do milho e da mandioca. Se servem também de frutas, que são abundantes. São raros os casos de desnutrição na tribo. Os homens tem que garantir, principalmente, a segurança alimentar. Também procuram assegurar uma boa relação entre os integrantes da tribo e as tribos vizinhas. Dentro da organização, as funções são divididas: pajé, raizero, mateiro e por aí vai. Os Kamaiurá são índios de língua tupi, que juntamente com mais nove tribos habitam a região dos formadores do rio Xingu. Entre essas tribos existe uma grande homogeneidade cultural. O tipo de habitação, a forma e a disposição das aldeias, a alimentação, as pinturas e os adornos corporais, e festas intertribais, sendo a mais conhecida o Kwarup.

O Kwarup, alguns dos senhores já devem ter ouvido, é considerado o grande emblema do Alto Xingu. Trata-se de uma cerimônia funerária, que envolve mitos de criação da humanidade, a classificação hierárquica nos grupos, a iniciação das jovens e as relações entre as aldeias. Neste instante mostrou alguns slides.
A aldeia Kamaiurá segue o modelo alto-xinguano, com casas dispostas em circulo, cobertas de sapê, de teto arredondado até o chão. No centro desse espaço circular encontra-se um pátio para o qual convergem os caminhos, conduzindo tanto às moradias como aos lugares públicos, e onde se ergue a casa das flautas. Na cultura Kamaiurá, as flautas só podem ser vistas e tocadas por homens. Em frente a casa das flautas, está o banco da roda dos fumantes, onde se reúnem os homens para contar os acontecimentos do dia e discutir outros planos da tribo.

Apesar daquela exposição estar sendo muito proveitosa e interessante, alguns de nós já mostravam certo grau de impaciência. Queríamos ver tudo aquilo ao vivo e a cores. O ten. Montenegro, percebendo, creio que encurtou aquela sua “aula” sobre os Kamaiurá e de uma forma polida disse: Bem, creio que poderíamos ficar mais um bom tempo aqui falando sobre esta maravilhosa tribo. Porém, os senhores devem estar ansiosos para partir em direção à ela, não é? Todos concordaram e alguns já se levantaram das cadeiras, prontos para a próxima etapa. Os carros que iam nos transportar se encontravam na saída do alojamento. De uma forma organizada, ingressamos nos veículos e lá fomos nós.

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VIAGEM AO XINGU – CAPITULO V – DA ALDEIA – DA FESTA KUARUP
Ricardo Campos Jordão

Pois bem, depois de havermos nos acomodado nos carros, seguimos em direção à aldeia. O trajeto era um pouco acidentado, em vista de o caminho ser um tanto precário. Como a aldeia não ficava distante, cerca de uns 15 quilômetros dali, logo chegamos. A nossa impressão inicial foi de que o lugar era bem maior do que imaginávamos. Na aldeia vimos cinco casas de forma oval cobertas de palha. Não dava para se distinguir o que era teto e o que era parede. Ambos faziam um conjunto só. A maior delas tinha possivelmente uns 20 metros de comprimento por uns 10 metros de largura e uns 6 metros de altura. Era uma construção imponente. Fomos recebidos pelo índio Turukawi chefe da tribo. Estava pintado com as cores vermelha e preta e usava um lindo cocar de penas. O ten. Montenegro que era bem conhecido dos índios, após haver trocado umas palavras com o cacique, logo nos conduziu para conhecermos o interior das casas. Lá chamadas de maloca. Entramos em fila pois a abertura das casas é estreita. No interior, pudemos ver redes esticadas, sendo as dos homens em posição superior às redes das mulheres. O centro da casa estava ocupado com cestos, panelas grandes e fogo de cozinhar. No teto, vimos muitas espigas de milho seco amarradas, armadilhas de pesca e alguns enfeites de penas. Um índio saboreava algo feito com mandioca. Perguntei ao ten. Montenegro. É só da mandioca que os índios se alimentam? O objetivo era fazer com que o tenente pudesse explicar de uma forma mais detalhada os tipos de alimentos que eram por eles consumidos e como faziam para obtê-los. Rapidamente nos respondeu: De fato, os índios dependem muito da mandioca.

Mas produzem ainda o milho, a batata doce, o cará, a cana de açúcar e até o amendoim. Nas roças, cultivam ainda o algodão e o fumo. Onde ficam as roças, alguém perguntou. O ten. respondeu: Elas são grandes e são individuais. Estão abertas na mata que circunda a aldeia. A alimentação básica dos índios consta ainda de beiju, feito com a mandioca que sempre é acompanhada de muito peixe, assado ou cozido.

Ainda tem o piqui e frutas silvestres, seguidas de pequenas caças. Somados todos, tenha os senhores a certeza de que se trata de uma alimentação rica, saudável e bem balanceada. Um inconveniente, se é que podemos chamar assim, é a distancia das roças em relação às casas da aldeia. O tempo médio gasto é de quase duas horas, sendo parte do trajeto feito a pé e parte de canoa. Dizem que isto se deve a qualidade da terra. Lá a terra é preta, não há vegetação rasteira e pouca invasão de formiga. Preferem assim. Nos retiramos da área interna das chamadas malocas. Lá fora, um grande número de índios estavam ocupados com os preparativos da grande festa. Afinal, naquela noite estaria o pátio repleto, com muita dança, música e gritos – hinos aos mortos. Isto tudo, além de farta comida servida aos convidados. Era um movimento de gente indo pra lá e pra cá intenso, enorme e sem fim. O ten. Montenegro, acompanhado de mais uns cinco índios que faziam nossa escolta, pediu para que nos acomodássemos, sentados num circulo, e passou a informar ao nosso grupo sobre aquilo que deveríamos ver logo à noite. A festa do Kwarup. Estávamos aproveitando uma sombra refletida pela grande casa indígena, pois o sol, a esta altura, se mostrava forte causando-nos muito calor.

O Kwarup, disse ele, que também é escrito como Kuarup, é um ritual dos grupos indígenas do Parque do Xingu realizado para homenagear os mortos. Os índios utilizam troncos feitos da madeira “kuarup” que são a representação do espírito dos mortos. A festa, poderíamos dizer, corresponderia a cerimônia de finados do homem branco. Entretanto, o Kuarup é uma festa alegre e exuberante, onde cada um coloca a sua melhor vestimenta na pele. Na visão dos índios, os mortos não querem ver os vivos tristes ou feios. Por isso, os índios capricham nas cores, nos ornamentos, querendo mostrar sua reverência, beleza e contentamento. A esta altura, podíamos identificar a presença de inúmeros índios que estavam iniciando as pinturas pelo corpo.

Prosseguiu o tenente: A cerimônia sempre ocorre em uma noite de lua cheia. Hoje, por sinal, ela estará no seu esplendor. Depois de dar mais um cem número de detalhes sobre a festa, consumindo uns bons cinqüenta minutos, finalizou. Acho que estou contando demais. O importante é que os senhores possam sentir e ver por si próprios. Senão perde a graça. Retornando ao nosso relato, eu vou aproveitar esta linha de bom senso lançada pelo tenente Montenegro e, igualmente, pedir licença aos amigos no sentido de apenas dar a nossa impressão do que vimos naquela noite, inesquecível por sinal, porém sem tantos detalhes. Tentarei resumir.

É que a cerimônia por si só desperta uma vontade de relatar tudo, nos fazendo esquecer do fato de que já se passaram mais de quarenta anos, e certamente, muitos de vocês já tiveram chance de ver esta grandiosa festa em inúmeras reportagens e documentários na TV. É aquilo mesmo. Lembro que o cenário era verdadeiramente fantástico. Os índios desta tribo, convidam as tribos amigas para evocarem juntas, as almas dos mortos que deixaram certa representatividade. Ainda noite, trazem da floresta vários toros de madeira, conforme o número dos que desapareceram, que vão ficando em linha reta no centro do terreiro em frente às malocas onde são recortados na forma humana de cada um. Passam a pintar neles as insígnias que em vida os fazia distinguir: pajés, guerreiros, caçadores ou até mesmo aqueles que maior numero de descendentes legaram à tribo. Enquanto são executados estes trabalhos, alguns homens com arco e flechas entoam hinos aos mortos. Tudo pronto, aos gritos de há-ha, há-há, vão os homens às malocas e de lá voltam acompanhados das mulheres e crianças. As mulheres, de cabelos soltos, trazendo algumas frutas e guloseimas, em largas folhas de palmeira, outras, ricos cocares, plumagem de coloridos vivos, braceletes e colares, aproximam-se em passos cadenciados. E em voz baixa travam com eles um pequeno diálogo em que parecem exprimir toda a gratidão, falando-lhes das saudades que deixaram, oferecendo-lhes ao mesmo tempo os frutos e enfeitando-os com os ricos cocares, as plumas, os braceletes.

Quando a noite chega, os homens entram no pátio trazendo uma espécie de tubo de palha incendiados, cuja luz faz refletir nos corpos untados de urucum a beleza dos seus músculos. Começa a dança do fogo. Primeiro em passos cadenciados depois em um crescendo cada vez maior, ao ritmo dos chocalhos dos maracás e das canções místicas, até se fazer ouvir a voz do pajé, implorando fazer voltar à vida aqueles mortos ilustres.

Neste exato momento a lua cheia se encontrava em seu máximo esplendor. De fato, aquilo tudo estava sendo registrado em nossa mente e nosso coração de forma permanente e até hoje, ao relembrar, sinto estar vivendo as mesmas sensações daqueles dias. Acho uma pena que poucas pessoas do mundo dito civilizado possam usufruir de tamanha beleza, de tamanha riqueza, de tamanha demonstração de ritos e hábitos culturais. O Brasil precisa ser melhor conhecido e explorado…
Feita esta digressão, voltemos a festa.

Terminando a evocação do pagé os homens se dispersam pelo terreno em pequenos grupos, enquanto só o pajé continua a entoar as suas loas até o alvorecer. De novo voltam as mulheres para ouvirem os cânticos que lhes anunciam ter o sol feito voltar à vida os mortos ilustres. Outras danças se seguem, iniciando mais um ciclo pela chamada dança da vida, onde os índios mais fortes trazem nos ombros uma longa vara verde, simbolizando os últimos nascimentos na comunidade. Agora, segue a cerimônia com a chamada huca-huca. Neste momento se faz um grande e intenso silêncio. Trata-se da homenagem aos últimos nascidos na tribo. Terminada a homenagem, as diversas tribos executam a luta denominada de “Uka-uka”, que parece ser uma luta romana. Finalmente, encerra-se a cerimônia em uma festiva procissão, onde todos são levados para o rio, e lá entregues às suas águas.

Estas são as lembranças de um tempo que se foi mas não passou. Depois de uma noite de festas, de novidades, de cores, cantos e luzes, retornamos ao nosso alojamento.

Muitos de nós com os olhos marejados de lágrimas. Afinal, vivemos momentos que iriam marcar para sempre as nossas vidas. É muita emoção…
 
DO RETORNO AO ALOJAMENTO

Voltamos ao nosso alojamento. Estávamos muito cansados, depois de passar a noite toda na festa Kuarup. Porém, creio, todos nós havíamos saído de lá diferentes. Era um sentimento de orgulho e gratidão por termos tido aquela oportunidade de ouro. Passamos a entender e a respeitar muito mais a vida e a cultura daqueles homens que com seus costumes indígenas tem muito a ensinar ao mundo civilizado. Ao entrar na sala de estar, encontramos o Major Vahia que aguardava a nossa chegada. A sua expressão era de uma pessoa que já tinha passado por aquela experiência várias vezes e que tinha a certeza que nós havíamos adorado. Como é, pessoal? Estou ansioso para saber. Gostaram do que viram?

Naquele momento, um dos nossos Professores se adiantou e foi pessoalmente cumprimentar o Major Vahia. Disse em tom cordial: Major Vahia, quero em nome dos professores do Vocacional agradecer imensamente por tudo o que o senhor tem proporcionado. A cada dia que passamos aqui, mais vontade temos de ficar. Este pedaço do Brasil é uma verdadeira riqueza, um paraiso. Sinto que as experiências aqui vividas são tão importantes que deveriam ser obrigatórias, extendidas a todos os professores desta nação. O que vimos ontem não existe preço que pague. Ficará marcado para sempre. Não tenho palavras para agradecer este gesto da FAB. Tenha certeza que iremos passar o que aprendemos para os nossos alunos, amigos e as pessoas com quem mantemos convivio diário. Receba de todos nós o melhor Muito Obrigado. Todos aplaudiram.

O Major Vahia, meio desconsertado e emocionado, tentou disfarçar: Bem, mas não foi isto o que eu pretendia com a minha pergunta. Gostaram?? Todos nós, em coro, respondemos: Queremos mais!!!
Naquele restante de dia, fomos descansar. Dormir mesmo. E sonhar com tudo o que vimos. Foi inacreditável.

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VIAGEM AO XINGU – CAPITULO VI – DA DESPEDIDA – VOLTA Á SÃO PAULO
Ricardo Campos Jordão
Acordamos bem dispostos. Aquele seria nosso ultimo dia no Parque. Fomos logo tomar café e sem muita demora nos reunir numa sala em que receberíamos as instruções dos militares que estavam nos acompanhando nesta viagem. Depois de estarmos acomodados nas cadeiras, entrou naquele ambiente um oficial vestido com roupas da selva (aquela toda cheia de pontos verdes, marrom, e beje, para ser confundida com as cores da mata) e com um leve sorriso disse: Bom dia a todos. Sou o capitão Terra. O Major Vahia me destacou para levá-los até o local onde ficam os irmãos Villas Boas. Porém, houve um imprevisto e eles tiveram que partir em direção a uma tribo que sofreu um conflito com sertanejos, já tendo ocorrido algumas baixas. Infelizmente esta nossa programação ficará prejudicada. Diante disso, pedi ao índio chamado Kuriatana pertencente a uma tribo próxima que viesse até aqui para poder estar junto aos senhores. É que ele já foi estudar em São Paulo, conhece a cidade e parte de seus costumes, e voltou recentemente para sua gente, aqui no Xingu. Imagino que esse encontro seja tão bom para os senhores como tenho certeza será pra ele. Pedi para que estivesse acompanhado de mais alguns índios jovens a fim de trazer as peças de artesanatos e objetos por eles confeccionados para que fossem mostrados aos senhores. Lembram-se das trocas? Os senhores poderão se organizar, reunindo, aqui na sala, o que ainda restou para oferecer aos índios. Caso necessitem de algo, é só nos procurar que estaremos a postos no setor de comunicações do alojamento. Ficará aqui o tenente Munhóz para acompanhá-los nesta visita, OK?

Lamentamos que aquela visita programada aos irmãos Villas Boas não tenha sido possível realizar. Porém, a idéia de trazer um indio que já conhece São Paulo foi das melhores. Retornamos aos nossos quartos e fomos apanhar tudo que tínhamos para fazer as trocas. Como era o último dia, teríamos que nos desfazer de todos os objetos. Voltamos à sala onde seria feito o encontro. Cerca de uma hora depois, chegaram os índios da tribo. Eram quatro rapazes, de fisionomia um pouco séria. Acho que estavam com vergonha. Todavia, na primeira meia hora de conversa, já esboçavam sorrisos nos seus rostos. O índio que havia estudado em São Paulo, perguntou se tínhamos saído com o avião no Campo de Marte, no bairro de Santana. Respondemos que sim. É que ele ficou alojado na casa de um militar naquele bairro, conhecendo o Parque da Aeronautica instalado naquele local. O jovem indio passou a se comunicar melhor. Conheci o Parque. Fui no hangar 03 onde “fica” os aviões, a pista e a torre. Fui na torre onde controla os aviões. Subi por uma escada até chegar lá em cima, na torre. Vi os aviões subindo e descendo. Me emprestaram um binóculo. Nunca tinha visto um. Cheguei a voar de helicóptero. Uma espécie de avião sem asa. Deu o maior medo. Um frio na barriga. Depois gostei. A esta altura, mais descontraídos, já não ficavam mais evitando nossas perguntas.

E então, um professor do Vocacional lançou a pergunta que instigava a nós todos: conta pra gente como é que foi essa sua ida para estudar em São Paulo. O índio respondeu: É que eu costumava ficar perto do alojamento da FAB e no Posto do senhor Orlando. Alí tinham pessoas que gostavam de conversar comigo. Acho que por eu ser muito curioso com as coisas. Depois de um tempo, o Senhor Orlando (Villas Boas) perguntou se eu queria estudar na cidade. Nem sabia onde era São Paulo. Eu disse que não queria não. Sei lá….Depois de passar um tempo, o senhor Orlando disse que poderia arrumar essa viagem. Aí achei bom e fui morar na casa do Capitão Araujo para estudar. Fiquei um tempo e voltei pro Xingu. A conversa rolou solta. Perguntas daqui e respostas dali e vice versa. De fato o índio era inteligente e de uma esperteza só. Sem que houvessemos pedido, o índio começou a tirar de uns balaios os objetos feitos na tribo. Tinham pulseiras de dentes de macaco, entalhes de madeira, imagens de bichos e de indios feitas de barro, pintadas. Tinha também enfeites com penas de aves coloridas, dentes de animais, uns enfeites para o braço e joelhos, e muitas outras coisas. O nosso grupo se reuniu em torno daquele material. Tinha bastante novidade para as trocas. Fiquei com um colar de penas intercaladas com dentes de macaco. Os nossos objetos de troca que estavam ainda disponíveis eram canivetes, iscas de anzol, linha de pesca, pentes, espelhos, linhas e agulhas de costura, botões de roupas de tamanhos variados, tesouras, estojo de lápis colorido e assim por diante. Em pouco tempo já tinhamos terminado com aquelas trocas. Passamos mais algumas horas numa conversa boa e depois nos despedimos do índio Kuriatana, que, junto com seus amiguinhos, levaram contentes os presentes recebidos do “homem branco”.

O tenente Munhóz informou que agora poderíamos tirar umas fotos de animais da selva embalsamados que estavam numa espécie de museu. Lógico, a curiosidade falou mais alto. Fomos pegar as máquinas para tirar fotografias. O chamado museu ficava numa sala grande onde tinha espécies como jacaré, capivara, tatu, cobras e outros animais, inclusive uma onça. Indaguei ao Tenente se poderíamos levar os animais embalsamados para tirar fotos lá fora, no gramado. A idéia era colocar os bichos em diversas posições, tal como se nós estivéssemos caçando. Sem medo e com muita valentia. O tenente deu um largo sorriso e concordou. Fomos pegando um a um com cuidado. Naturalmente que a onça foi a primeira a sair. As fotos mostravam alguns segurando seu pescoço. Outros, com o braço dentro da boca aberta da bicha, cheia de dentes. Outros simulando estar montados sobre ela. As risadas sairam soltas. É que cada uma escolhia um bicho e ensaiava uma posição mais exótica, um motivo mais extravagante, para sair nas fotos. Imagine, aquela folia toda, só mesmo estandoos bichos naquele estado. Embalsamados, lógico!

Passada a folia, retornamos aos quartos para guardar nossos objetos recem trocados com os índios e arrumar nossas malas. Passamos a sentir uma profunda tristeza só de lembrar que deveríamos deixar aquele lugar. Fomos nos reunir para o almoço no refeitório. O Major Vahia combinou um almoço de despedida especial em homenagem a nossa visita ao Xingu. Nos acomodamos nas mesas e, em seguida ao almoço, fizemos uma oração para agradecer pelo passeio e por estarmos com ótima saúde. Agradecer, também, por não termos tido nenhum acidente no período e pedir´para que nossa volta fosse em total segurança para São Paulo.

Finalmente, a Professora de Matemática que quase ficou em definitivo no Xingu – casada com um índio, entregou uma carta de agradecimento assinada por todos nós ao Major Vahia. Todos aplaudiram aquele gesto de cordialidade. Encerrada aquela cerimônia simples, fomos levar nossas malas nos automóveis que aguardavam no pátio para irmos ao avião. O nosso comandante Capitão Haroldo já estava instalado em sua cabine, se preparando para a partida. No avião, iriam voltar para São Paulo menos militares. Praticamente só os professores do Vocacional e dois índios que iriam fazer tratamento médico. Os quatro militares presentes retornariam à sua base de origem.

A porta da aeronave foi logo fechada e imediatamente foram acionados os motores. Mais índios na lateral da pista acenando. O avião começou a roncar forte e se movimentar em direção à cabeceira da pista. Rotação máxima e lá vamos nós. Destino, São Paulo.

“A nossa viagem foi maravilhosa em quase tudo. A exceção foi a duração – foi curta demais!”

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