Marca Indelével
Willians M. G. Barros
Jornalista e Fotógrafo – Turmas 68/69 – 1o C /1968; 1o E /1969 – GEVOA

Marca Indelével
Willians M.G. Barros
Vivi o apogeu e acompanhei a derrocada de uma utopia. Feitas as contas, devo ser o aluno que mais tempo permaneceu matriculado naquela escola da Avenida Portugal, 859. Quando entrei, em 1968, era o GEVOA, em sua plenitude entelequial. Ao sair, em 1976, deixei para trás apenas o Osvaldo Aranha, já nem sombra do que fora um dia. Posso garantir, no entanto, caro leitor, que o espírito do GV seguiu comigo, na mente e no coração, aonde quer que eu fosse, o que quer que eu fizesse.

De meu grupo original (turma C), com o qual pouco convivi, guardei escassas lembranças. A exceção: Vinícius Branco, com quem dividi meu primeiro maço de cigarros – marca Elmo – fumado todo ele numa tarde pelas ruas da Vila Olímpia. O que Vinícius soube apenas recentemente, quando o reencontrei depois de décadas, é que devo a ele, também, o fato de ser corintiano. Grande Vinícius!

Descobri o significado da palavra “eufemismo” na primeira série, especificamente no final do ano letivo. Fiquei retido, sumariamente, sem direito a compromisso. Bombei. Tomei pau. Na escola e em casa. Recomecei minha caminhada com a turma de 1969 (E), e com ela permaneci até a terceira série, ocasião em que meu lado “menino-problema” ganhou projeção. Este que lhe escreve matava aulas, sistematicamente, e ia para o Aeroporto de Congonhas caçar autógrafos de jogadores de futebol em trânsito. Meus dias de gazeta tiveram fim quando fui flagrado por meu pai, em pleno horário de aula, à beira da represa de Guarapiranga. Nem tive tempo de recolher o lambari que acabara de fisgar… Pau de novo.

Concluí o ginásio no recém aberto curso noturno, entre alunos mais velhos, vindos da rede de ensino tradicional. Foi quando me dei conta de que, apesar de meu histórico de vadiagem, o abismo que havia entre mim e meus novos colegas era assombroso. A essa altura, o Vocacional propriamente dito já tinha ido para o beleléu, mesmo durante o dia. Havia ainda, contudo, algo no ar que a ditadura não conseguira dissipar: o espírito da coisa. Alguns de meus professores no diurno dos bons tempos estavam agora também lecionando à noite. Mestre Zago era um deles. O inesquecível Ferraccioli, outro. Preciso, no entanto, dizer de meus dois grandes xodós: Vilma Leal e Cecília Martins. Com a primeira, dei meus primeiros passos no Francês, naquela salinha ao fundo do corredor, no andar de cima. Reencontrei-a de noite dando aulas de Português, e com ela segui até o fim do colegial (guardo até hoje várias redações, carinhosamente corrigidas por ela, recheadas de comentários preciosos). Com a Cecília, ex-aluna da turma de 62, tive inesquecíveis aulas de Filosofia, além de outras peripécias intelectuais (como esquecer da SEMANARTE, Cecília?). Vocês duas: que estas linhas lhes soem como uma declaração de amor!

Seria injusto não revelar uma outra paixão que tive, a querida Celeste, de AP. Eu, que sempre fui absurdamente tímido e que só me manifestava na marra, era mais eu na aula da Celeste. Claro que a extrema doçura da mestra ajudava mas, mesmo sem jamais ter sido um gênio nas Artes Plásticas, consegui nesta “área” meu primeiro (e único) Superior Mais. Com um trabalho de técnica livre – horroroso! – na roda, começamos o processo de avaliação em grupo. Todos torceram o nariz para minha repugnante obra. Na hora da auto-avaliação, me enchi de coragem e imputei-me o conceito máximo, alegando ter atingido meu objetivo de causar repulsa ao público. Daquele dia em diante, o gráfico de minha auto-estima só melhorou.

Anos depois, já na faculdade, eu estava “insuportável”. Um professor de Estética tinha dado nota 2 a um trabalho de minha lavra. Fui até ele pedir explicações. Depois de ouvir a justificativa do mestre, aleguei que, em nome da coerência, eu mereceria um zero. Ninguém entendeu como aquele cabeludo estava brigando pela diminuição da nota. Nota? O que é nota?

Tenho guardadas algumas relíquias daqueles nossos anos gloriosos. A singela flauta bloch, com meu nome pirografado, é uma delas. Espantoso mesmo é que carrego na memória um dos exercícios da aulas de Música: sol, si, lá, sol, lá, si, lá /sol, sol, lá, lá, si, lá, sol. A bem da verdade, esqueci quase nada de tudo: situações, rostos, cheiros… O Voca está vivo, sempre esteve.

Não sei se surgirá definição melhor que a do colega Luiz Henrique Mello, no depoimento ao lado, de que o Vocacional é “ uma tatuagem espiritual” . Para mim, pelo menos, é marca indelével, que ostento com muito, mas muito orgulho.
Willians M.G. Barros

Depoimento 8 – recebido em 06/11/2005

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